Aqui você encontra a arte de contar histórias (storytelling)
entrelaçada à educação, literatura, brincar, educação ambiental e cultura de paz.

História: Amor ao próximo

Ilustração: KRISTINA NAGY em Histórias da Bíblia Para Crianças (p. 107).
 Jesus ensinava ao povo quando um religioso, testando-o, disse: - Mestre, que farei para alcançar a vida eterna?

O Mestre respondeu ao sacerdote com uma pergunta: - O que está escrito na lei de Deus? Como você lê o que está escrito?

Respondeu assim o sábio das leis de Deus: - Amará ao Senhor Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo.

- Respondeu bem; faça isso e viverá o sagrado eterno.

- Mas afinal, mestre, quem é esse “próximo” que devemos amar? O meu próximo é quem está perto de mim, como o meu vizinho, ou também quem está perto da minha religião, do meu sangue ou da minha pátria?

Jesus respondeu com uma parábola...

Crônica: “Em vez de lutar contra as sombras acenda uma luz.”


O bombardeio de notícias, filmes e games violentos faz a nossa subjetividade esfacelada. Queremos erguer muros, vestir armaduras e capacetes à prova de lâmpadas fluorescentes que subitamente explodem em nossa face.


Pretensamente protegidos, queremos jogar contra o outro. Adultos X crianças, meninos X meninas, ricos X pobres, capitalistas X comunistas, corintianos X palmeirenses, judeus X muçulmanos, cristãos X pagãos, ciência X religião... Sempre haverá colisões enquanto a subjetividade humana for moldada por divisões superficiais, materiais e interiores.

No entanto, mesmo no meio de noites escuras, alguns se aventuram além dos muros pessoais e olham os outros sem capacete. Veem além de estigmas econômicos, sociais, culturais e moralistas, veem espiritualidade, veem outros como humanos. Veem reflexos de brilhos nos olhares.

Para ver o outro como igual é preciso antes, se ver humano. Mortal. Imperfeito. Sem vidas infinitas. Sem armas espetaculares.  As armas são as simples ações do dia-a-dia e estas ações podem ser dignas de milhares de heróis humanos. Em cada escolha um ato heróico, vestindo, comendo, plantando, reciclando, compartilhando histórias, brincando, pacificamente revolucionando a própria mente.  Não acho impossível que milhões destas ações possam mudar bilhões de seres vivos.

Foi muito bom conhecer pessoas que andam por aí revolucionando sem capacete! Pessoas que lutam contra a escuridão acendendo luzinhas. Para histórias, ações e iluminações, podem contar: conosco (rs), a turminha da vila : ) *
  
Juliana, bela reflexão e obrigado pelo link! Camila, obrigado pelo convite!

Abs,
Fabio

“A divisão entre os homens é uma projeção em escala coletiva da divisão que há dentro de você mesmo.”
Arnauld Desjardin
“Em vez de lutar contra as sombras acenda uma luz.”
Princípio da celebração judaica de Chanucá  - Associação Beneficente Beit Chabad


* A Turminha da Vila é formada por crianças residentes em regiões de vulnerabilidade social e econômica que recebem atendimento educacional e religioso na igreja Batista da Vila Nova Cachoeirinha, zona Norte de São Paulo. Um grupo de amigos jornalistas ajudou a organizar a festa de fim de ano da Turminha da Vila e eu fui convidado a participar do evento... contando histórias, claro.

Crônica inspirada na reflexão pós-evento de Juliana Ricci em sua nota no facebook: A guerra está dentro de nós http://www.facebook.com/notes/juliana-ricci/a-guerra-esta-dentro-de-nos/175942809097657

FOTO:
Velas na Igreja de Notre Dame – Paris, França
Fotografia de Air Jordi (www.flickr.com/photos/airjordi)

Fotos da Turminha da Vila na Festa de Natal por Melina Moulaidis:
http://www.facebook.com/photo.php?fbid=1749017962445&set=a.1749016322404.107523.1148713763

Festa de Natal 2010 - Turminha da Vila na expectativa dos presentes

Festa de Natal 2010 - Turminha da Vila canta pela PAZ

Como contar histórias e ler para crianças


7 Dicas de Leitura do Programa Ler Faz Crescer destrinchadas pelo Blog Contar Histórias

1.       Encontre um espaço aconchegante.
O espaço ideal para se contar histórias deve ser um local reservado, sem muita interferência sonora e visual externa como conversas e aparelhos eletrônicos ligados. No entanto, não se prenda ao ideal e literalmente crie “espaços aconchegantes” no sofá, no tapete, no ônibus, na grama, embaixo de uma árvore, na cama (ou embaixo dela), numa sala de aula (ou de espera :).

2.       Assuma o lugar de leitor e a alegria de compartilhar a narrativa.
Faça da leitura um momento de troca afetiva e de prazer para ambos (leitor e ouvinte).

3.       Escolha histórias que te encantam.
Fuja das narrativas que considerar infantilizadas ou rebuscadas demais para o seu ouvinte (e para você mesmo).  Ao escolher contos que te fascinam, a chance do teu ouvinte se fascinar é maior.

4.       Dê vida às histórias.
Use seu corpo, inclua gestos e expresses faciais acompanhando os personagens e o seu fluxo de emoções ao longo do conto.  Tente diferentes timbres de voz para diferenciar os personagens e o narrador. Explore o ritmo de sua respiração e a velocidade da narração de acordo com os momentos crescentes de tensão da narrativa. Use entonação de voz para enfatizar os sentimentos dos personagens e do narrador.

5.       Envolva o ouvinte.
Pergunte coisas para perceber se o seu ouvinte está acompanhado o enredo e para facilitar a identificação do mesmo com sentimentos, atitudes, fraquezas e valores presentes na narrativa do livro escolhido. As crianças adoram brincar pois numa brincadeira elas são os personagens principais desta ação. Ao envolver as crianças numa narrativa a ponto de fazê-las se sentirem como sujeitos atuantes, ouvir histórias pode virar uma gostosa brincadeira!


6.       A experiência com a escuta PODE começar e terminar com a própria narrativa.
Nem sempre é preciso buscar justificativas, explicações, pretextos. No entanto, acredito que os momentos de escuta podem ser ampliados sim, para além do momento da contação de histórias. Os momentos de reflexão, de (res)significação dos sentidos podem ser vividos antes e após a narração, e mesmo em experiências cotidianas futuras.


7.       A leitura de um texto não se esgota em uma primeira leitura.
Experiências futuras podem não ter aparentemente relação com o texto lido, mas o ouvinte pode passar por situações em que fará sozinho (ou estimulado) as devidas conexões. Esta vivência possivelmente suscitará a vontade de ouvir uma releitura do texto lido, que na segunda, terceira e enésima vez virá carregada de novos (e aprofundados) sentidos. A releitura faz com que os ouvintes iniciantes sintam-se seguros, exercitem sua memória e pratiquem também sua capacidade criativa ao pensar sobre atitudes diferentes dos personagens e desfechos alternativos.

Texto: Fabio Lisboa - baseado nas Dicas de Leitura do Programa Ler Faz Crescer da Fundação Itaú Social

Saiba mais sobre o kit do Programa Ler Faz Crescer da Fundação Social Itaú e Peça livros infantis grátis.

Peça livros infantis grátis

Banco Itaú já dou 8 milhões de livros e promete mais no Projeto Ler Faz Crescer


O projeto “Ler Faz Crescer”, iniciativa do Banco Itaú/Fundação Itaú Social, desde 11 de outubro de 2010 já distribuiu 8 milhões de livros infantis. O kit, que qualquer cidadão brasileiro pode pedir gratuitamente, contém 1 folheto explicativo do projeto (que inclui dicas simples para os pais e professores sobre como contar histórias), 4 livros de histórias infantis em formato reduzido e um adesivo.

Os 4 livros escolhidos abarcam: Parlendas, Poesia, Conto de fada e Lenda Popular. São eles:

·         O jogo da parlenda, de Heloísa Prieto (Companhia das Letrinhas),
·         Bem-te-vi e outras poesias, de Lalau e Laurabeatriz (Companhia das Letrinhas),
·         Os três porquinhos (Girassol),
·         Lobisomem (Girassol).

Para ganhar o kit, acesse o site www.lerfazcrescer.com.br e preencha os seus dados no link “peça seu kit”.

Os livros serão entregues em todo o Brasil enquanto durar o estoque. Segundo a Fundação Social Itaú, os 8 milhões de livros gratuitos prometidos já se esgotaram, mas eles estão preparando mais exemplares (não divulgaram quantos) e por isso ampliaram o prazo de entrega para até 45 dias.

Nas próximas postagens comento sobre as dicas e os livros.
  

Feira de Livros da USP


Começa hoje (24/11/10) a tão esperada Feira de livros da USP da FFLCH (Fefeletchi) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Livros com descontos de 50%!
QUANDO: de quarta a sexta-feira, dias 24, 25 e 26 de novembro, das 9h às 21h.

ONDE: Prédio da Faculdade de Geografia e História da USP - Av. Professor Lineu Prestes, 338 – Cidade Universitária – São Paulo.

QUEM: Algumas boas editoras como Cia das Letras, Moderna, Salamandra, Scipione, Ática, Melhoramentos e WMF Martins Fontes não participam. Mas não vão faltar boas editoras como Cosac Naify, Martins (Martins Fontes), Peirópolis, Brinque-Book, Global, Nova Fronteira, Paulinas, Palas Athena, Conrad e as universitárias como Edusp!

Vale a pena visitar a Feira com uma pré-seleção e uma listinha no bolso antes de sair comprando leituras que não cabem numa vida (rs)... Algumas dicas bacanas de livros infantis você encontra no link do Instituto IAB na seguinte postagem 600 livros antes de entrar para a escola: as crianças dão conta?

Veja abaixo quais as editoras participantes da 11ª Festa do Livro da USP:

7 LETRAS
AEROPLANO EDITORA E CONSULTORIA LTDA
ALAMEDA CASA EDITORIAL
ALEPH
ALFA/ÔMEGA
ANNABLUME
ANPOCS - SUMARÉ
ASSOCIAÇÃO EDITORIAL HUMANITAS
ASSOCIAÇÃO SCIENTIAE STUDIA
ATELIÊ EDITORIAL
ÁTOMO E ALÍNEA
AUTÊNTICA EDITORA
AUTORES ASSOCIADOS
AZOUGUE
BARCAROLLA
BARRACUDA
BERLENDIS & VERTECCHIA EDITORES
BIRUTA
BOITEMPO EDITORIAL
BRASILIENSE
BRINQUE-BOOK
CALLIS
CAPIVARA
CASA DA PALAVRA EDITORA
CIRANDA CULTURAL
CONRAD
CONTRAPONTO
COSAC NAIFY
DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA DA USP
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DA USP
DEPARTAMENTO DE LITERATURA COMPARADA DA USP
DISCURSO EDITORIAL
EDIÇÕES PINAKOTHEKE
EDIFIEO - EDITORA DA FUND. INSTITUTO DE ENSINO OSASCO
EDITORA 34
EDITORA ANGRA
EDITORA BECA
EDITORA BEM-TE-VI
EDITORA BOSSA NOVA
EDITORA COM-ARTE
EDITORA DA UFJF
EDITORA DA UFPR
EDITORA DA UFSCAR
EDITORA DA UNESP
EDITORA DA UNICAMP
EDITORA FIOCRUZ
EDITORA FRANCIS/LANDSCAPE
EDITORA GIORDANO
EDITORA GIRASSOL
EDITORA GLOBO
EDITORA HORIZONTE
EDITORA HUCITEC
EDITORA ÍBIS
EDITORA LAZULI
EDITORA LEXOR
EDITORA MEMORIAL
EDITORA NOVA AGUILAR
EDITORA NOVA FRONTEIRA
EDITORA OURO SOBRE AZUL
EDITORA PAPAGAIO
EDITORA PUBLIFOLHA
EDITORA UEL - EDUEL
EDITORA UEPG
EDITORA UFF
EDITORA UFMG
EDITORA UFRJ
EDITORA UFSC
EDITORA UNB
EDITORA VIA LETTERA
EDUC - EDITORA DA PUC/SP
EDUERJ
EDUSC
EDUSP
EDUSP - SALDÃO
ESCRITURAS
ESTAÇÃO LIBERDADE
FONDO DE CULTURA ECONÔMICA
FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO
GARAMOND
GIRAFA
GLOBAL E GAIA EDITORA
HEDRA/CARRENHO
HUMANITAS-FFLCH/USP
IEA - USP
IEB
ILUMINURAS
IMAGINÁRIO
IMPRENSA OFICIAL DO ESTADO DE SÃO PAULO
INSTITUTO MOREIRA SALLES
INSTITUTO PIAGET
LANDY
LEITURA MÉDICA
LÍNGUA GERAL LIVROS
LIVRARIA DUAS CIDADES
LIVRARIA EDUEM
MARTINS EDITORA
MUSA COMERCIAL
MUSEU PAULISTA
NANQUIM EDITORIAL
NOVA ALEXANDRIA
ODYSSEUS
OFICINA DE TEXTOS
PALAS ATHENA
PALLAS
PANDA BOOKS
PAPIRUS
PAULINAS EDITORA
PAULUS
PAZ E TERRA
PEIRÓPOLIS
PERSPECTIVA
PRÊMIO EDITORIAL
REVISTA USP
ROSARI
SÁ EDITORA
SUNDERMANN
TERCEIRO NOME
TERRA VIRGEM
VEREDAS
VIEIRA & LENT
XAMÃ
ZOUK
 

História: O Céu e o inferno - O monge e o samurai

Dedicação ao ensino, coragem e compaixão

A vida do samurai andava um inferno.

Dúvidas sobre o Bushido lhe atormentavam. Para ter paz, precisaria aprender mais sobre um dos princípios deste código dos samurais.

O guerreiro precisava aprender sobre compaixão. Ele nunca teria paz se vivesse apenas pela coragem e disciplina. A compaixão era um dos valores que norteavam o caminho do cavaleiro, o Bushido[1].

Aquele samurai se perguntava se não teria desviado do caminho ao cortar cabeças indefesas e não ajudar inimigos em dificuldades. Teria ele perdido o poder da compaixão? Teria ele perdido a honra? Por que sua vida estava um inferno e como seria alcançar o céu?

As dúvidas levaram o guerreiro em busca de um local sagrado – na esperança de encontrar um mestre que o tirasse de seu inferno e lhe ensinasse o que era o céu. Enquanto ia se aproximando do templo zen budista os lavradores se afastavam daquele homem.  Chegando lá, o samurai exigiu ser levado à presença do monge chefe. Este ensinava na cozinha. O homem armado de espada ouviu os ensinamentos do outro, armado de uma colher. O mestre[2] ensinava os aprendizes sobre a importância de transformarem em prática o pensamento zen. A importância de praticarem de fato o que quer que fossem ensinar. O mestre zen parou de falar e com sua colher remexeu cuidadosamente o cozido de legumes na panela. Voltou a falar do aspecto sagrado de cada ação cotidiana, que a prática da preparação diária do alimento é a mesma prática do caminho da iluminação.

“Pense que as panelas são você mesmo... Veja que a água é a sua própria vida...”[3]

E voltou a mexer o cozido, borrifando temperos que ao caírem na panela exalaram vapores aromáticos...

Só que o samurai não queria saber de prática de “mestre cuca” coisa nenhuma! Ele não queria perder tempo da sua “busca espiritual” com futilidades diárias como culinária. Rompeu o silêncio dos vapores:

- Mestre: quero que me ensine sobre a compaixão. Quero que me ensine sobre o céu e o inferno.

O monge olhou longamente para o samurai. Reparou em seu calçado enlameado, em sua espada embainhada, em sua mente inquieta.

- Você não vai encontrar o que busca. Como posso ensinar a pureza e a beleza da compaixão a um homem com a bota, a espada e a mente completamente sujas? Sua presença deixa este templo feio e sujo. Seria melhor que saísse daqui agora!

O sangue do samurai se aqueceu mais rápido do que as panelas e em dois movimentos ele desembainhou a espada e preparou o ataque certeiro que faria rolar a cabeça daquele monge que desrespeitava a honra de um cavaleiro que, por sua vez, se afundaria ainda mais em seu inferno.

O monge permaneceu parado e quieto, mirando o outro com profundidade. Com a espada viajando pelo ar a poucos centímetros do seu pescoço, disse:

- Espere. Agora você já sabe o que é o inferno. Isto é o inferno!

O astuto espadachim fez parar sua katana[4] antes dela atravessar a pele. Ficou espantado com a coragem e dedicação do mestre ao ensinar. O monge colocava suas palavras e sua própria vida à serviço do outro. Entendeu que a sua maior desonra não seria receber um insulto e sim praticar um ato violento.

O desejo de paz invadiu o guerreiro. Uma onda de compaixão o arrebatou.

O monge, enfim, enxergou o olhar iluminado e compassivo do samurai:

- Agora você já sabe o que é compaixão. Isto é o céu.

Recontada por Fabio Lisboa




Referências

Ilustrações: Paulinho Ramos e Pintura tradicional japonesa sem identificação (a não ser para quem sabe ler ideogramas) Fonte: http://www.painandpower.blogger.com.br/2003_10_19_archive.html.

Leituras sugeridas:
MARTINELLI, Marilu – Aulas de transformação: o programa de educação em valores humanos - São Paulo, Ed Peirópolis, 1996
NITOBE, Inazo – Bushido:  Alma de samurai – Ed. Tahyu, 2005
RÔSHI, Shundo Aoyama – Para uma pessoa bonita – contos de uma mestra zen – trad. Tomoko Ueno -São Paulo: Palas Athena, 2002, p. 28.

História selecionada para o Projeto ABC: Aprender, Brincar, Cuidar

Consulte:
Postagem introdutória sobre o projeto
Histórias selecionadas e relacionadas ao projeto.

Mais informações sobre os parceiros idealizadores e realizadores do projeto ABC: Aprender, Brincar, Cuidar:



[1] Bushido – Código de conduta (não escrito, passado de pai para filho) dos samurais. Segundo Inazo Nitobe, Bu – shi – do significa literalmente: militar-cavaleiro-caminhos. Descrição oral dos caminhos (princípios morais) que o cavaleiro (nobre soldado) deve observar em sua vida diária. Os preceitos do cavaleiro.
[2] Esta parte da história é recontada aqui po r Fabio Lisboa com base nos ensinamentos do Mestre Dôgen (1200 -1253), fundador da escola Soto- Zen do Japão.
[3] RÔSHI, Shundo Aoyama – Para uma pessoa bonita – contos de uma mestra zen – trad. Tomoko Ueno -São Paulo: Palas Athena, 2002, p. 28.
[4] Katana (em japonês pronuncia-se kataná): Nome mais conhecido da espada samurai (longa, cuja lâmina é côncava e mede aproximadamente 60cm).

Limites na educação: sem limites para o amor


Caminhando juntos para os aprendizes andarem por si sós

- Como meus filhos vão aprender a ter limites? Como meus alunos vão aprender a respeitar uns aos outros? O quanto eu devo interferir, pedir, impor, andar junto, amar...?

O professor era aprendiz.  O aprendiz pedia aconselhamento a seu mestre - e pai. Pai e filho andavam descalços à beira do mar. O filho, formado há poucos anos,  já andava com a mente cansada e o corpo debilitado ao fim de seu quinto ano no corpo docente.

Os sinais de estresse já atingiam todo o corpo: no coração hipertensão de raiva profundamente acumulada, na pele já protuberava coceira do vício da indiferença, pressão generalizada dos prazos escassos e conteúdos extensos oprimiam todos os órgãos, as pernas trêmulas mal sustentavam o peso das ameaças, os olhos inchados eram prova de insônia, os sonhos perderam o nexo e com isso os pés andavam embaralhados sem rumo.

Os pés do mestre andavam firmes. Pararam. Os do aprendiz o acompanharam. O filho sabia que logo teria que voltar a caminhar sozinho e queria aproveitar estes momentos de proximidade com o seu pai.

O pai estava preocupado com o estado físico e psíquico do filho mas feliz por estarem de férias (ele para sempre, professor aposentado), andando ao lado do mar, tentando deixar os medos para trás, compartilhando angústias e sonhos...

O filho precisava mesmo de férias. Mas também de foco. De exemplo. De força. De passos compassados lado-a-lado. E de afeto.

Primeiro um abraço. - Eu também já me senti assim, filho - mesmo lecionando numa época em que a palavra estresse ainda não habitava os dicionários. Os dois sentem que a angústia dividida fica menos angustiada. E a esperança dividida fica mais esperançosa. Agora as esperançosas ideias do pai chegam ao filho com a mente calma, calmamente, relembrando ações e buscando palavras de mestre:

- O professor deve ser sempre o exemplo de suas próprias palavras...

Eu sempre tentei ser para os meus alunos o que eu fui para você, filho:
Eu sempre te amei nos tempos de notas altas ou baixas, e assim eu te ensinei a amar.
Eu sempre te ouvi nos tempos de riso ou choro, e assim eu te ensinei a ouvir.
Eu sempre te mostrava e respeitava os seus limites, e assim eu te ensinei a respeitar os limites dos outros.
Em qualquer tempo, com você, eu sempre ensinei e sempre aprendi.

E vejo que com suas perguntas aqui no meio das areias de nossas férias, que isso você aprendeu: o professor deve ser sempre aprendiz.

- Aprendi e vou continuar aprendendo sempre com você, pai, mas não sei se sei mesmo ensinar...Pai, não sei ensinar nem meus alunos a terem limites e eles estão me deixando louco...

- Quer saber como seus alunos vão aprender a ter limites?

O mestre abaixou e pegou um punhado de areia nas mãos. Começou a apertar a própria mão cheia de areia. Muitos grãos foram escorrendo, fugindo de sua mão e caindo...

Os grãos que ficaram estavam comprimidos num pequeno montinho. O pai falou:

- Limites muito estreitos, muito rígidos, poucos aguentam, muito escapam e os que ficam não sabem o que fazer sem esta mão autoritária.

O pai voltou a agachar, afundou a mão na areia e desta vez levantou-a com a palma aberta. Muita areia escorreu entre os seus dedos e muitos grãos voaram com o vento...
- Sem limites, sem regras, poucos aguentam, muitos escapam e os que ficam a qualquer momento voam sem destino com o vento nesta mão indiferente.

Pela terceira vez o sábio professor abaixou, pegou um punhado de areia nas mãos formando, então, uma concha aberta:

- Limite equlibrado. Sua mão em concha protege as areias do vento, não comprime os grãos uns contra os outros. E deixando a concha aberta você mostra que o mundo é maior do que a sua concha, que no momento certo eles vão poder ir além dos seus limites, vão poder caminhar sozinhos e quem sabe até chegar ao mar...

Naquele instante uma onda mais forte chegou até pai e filho. O pai jogou a areia que segurava e elas sumiram nas águas.

O filho abaixou e ficou brincando com os grãos nas mãos até fazer uma concha aberta. Levantou com os olhos, mãos e com o corpo todo. Os pés alinharam-se em direção ao horizonte marinho. Esperou a onda voltar a seus pés e jogou a areia que se juntou às águas.

- Pai, o quanto eu devo amar os meus alunos?

- O mesmo tanto que deve amar os seus pais, os seus futuros filhos, os seus falecidos avós, a sua casa, os seus vizinhos, o seu planeta e os seus infinitos irmãos.

Os dois mestres olharam para o mar sorrindo e continuaram caminhando lado-a-lado por mais algum tempo.


História selecionada para o Projeto ABC: Aprender, Brincar, Cuidar, recontada por Fabio Lisboa.

Consulte:
Postagem introdutória sobre o projeto
Histórias selecionadas e relacionadas ao projeto.

Foto: Tina

Mais informações sobre os parceiros idealizadores e realizadores do projeto ABC: Aprender, Brincar, Cuidar:

Rotina, limites e verdade ao educar

Projeto ABC: Aprender, Brincar, Cuidar / Tema 4: Crie um mundo previsível para o seu filho


A importância de se sentir seguro, em um mundo confiável
À medida que as crianças crescem é necessário que os adultos que cuidam delas estabeleçam regras e normas sobre aquilo que pode e deve ser dito ou ser feito. As crianças precisam de limites claros e objetivos, colocados com segurança e na hora certa, pois eles servem para ajudar os pequenos a tomar decisões corretas, a desenvolver o autocontrole e a cuidar de si mesmos respeitando os outros. Em outras palavras, os limites servem para ajudar as crianças a desenvolver a sua autonomia e se socializarem de forma saudável.

Para tanto, é importante o uso de métodos educativos não-violentos baseados em bons exemplos de palavras e atitudes, pois, como sabemos, as crianças pequenas aprendem imitando os pais e/ou cuidadores. Além disso, é muito importante que os adultos que educam crianças sejam capazes de sentir empatia por elas, ou seja, sejam capazes de compreender o seu ponto de vista e respeitá-lo, na medida do possível. Para isso, o diálogo é fundamental.


As crianças educadas com bons exemplos e empatia aprendem que as suas necessidades serão satisfeitas de forma consistente e previsível. Ou seja, aprendem a estabelecer laços de confiança com os seus pais e/ou cuidadores.  São esses os laços que fundam as bases para um ambiente familiar respeitoso e amoroso.

A importância da rotina para as crianças
A rotina se refere à organização dos horários para a realização das diversas atividades que as crianças precisam cumprir a cada dia. Quando ela é bem estabelecida, gera segurança, diminuindo a ansiedade e a desorientação. Além disso, uma rotina bem planejada ajuda na formação de bons hábitos. E quando os bons hábitos são incorporados, castigos e agressões não são necessários.

No início, manter a rotina pode ser difícil, mas a perseverança por parte dos pais e/ou cuidadores contribuirá para essa adaptação. É bom lembrar que não adianta querer estabelecer uma rotina para as crianças e para a casa, se os adultos não a respeitarem.

Cada família estabelece suas regras e normas. Algumas podem ser negociadas, outras não. Da mesma forma, cada família deve usar o bom senso para estabelecer a sua rotina.  Mas, em geral, ela envolve os momentos de acordar, se alimentar, brincar, ter hábitos de higiene, dormir etc.

Os pais e/ou cuidadores precisam deixar bem claro para a criança o que pode e o que não pode ser feito. Conforme a criança cresce, a arrumação e organização do espaço também podem fazer parte da rotina, pois ela pode ajudar a guardar seus objetos de uso pessoal e seus brinquedos. Quando a criança iniciar sua vida escolar, a hora de ir para a escola e de fazer os deveres escolares também deverão fazer parte da rotina.
Os finais de semana e os feriados também devem ser incluídos na rotina, tomando-se o cuidado para que nesses dias haja períodos em que a criança tenha a liberdade para escolher quais atividades realizar.

A rotina não deve ser vista como rígida e estática. A flexibilidade é importante desde que não signifique burlar as regras, pois os “combinados” deverão ser levados em conta na maior parte do tempo.
Quando for necessário mudar a rotina, é importante que a criança seja informada. Entretanto, essa informação não deve ser dada com muita antecedência, para não gerar expectativas.

A importância de falar (e agir) com verdade
É apenas por volta dos 4 ou 5 anos que as crianças começam a ter noções de responsabilidade, direitos e deveres, ou seja, começam a ter noções de ética. Entretanto, é importante que os pais e/ou cuidadores comecem a educá-las para os valores desde cedo, pois esse aprendizado demanda insistência, paciência e dedicação.

A melhor maneira de ajudar uma criança a compreender valores abstratos como responsabilidade, honestidade e gratidão, é por meio dos bons exemplos. Ao invés de apenas falar como a criança deve agir, os adultos também precisam agir de forma adequada. Dizer uma coisa e fazer outra confunde as crianças e promove situações de confronto.

Outro modo de ensinar valores às crianças é por meio de histórias infantis ou contos de fadas. Eles ajudam a criança a se identificar com personagens e aprender com eles. Além disso, é muito importante sempre falar a verdade para as crianças. É por meio desse exemplo que elas aprenderão que é melhor ser honesto do que mentiroso.

O aprendizado de valores é importante para que as crianças enfrentem desafios com segurança e que tenham consideração pelo Outro, ajudando a transformar o mundo num lugar melhor para todos!

Consulte:
Postagem introdutória sobre o projeto
Histórias selecionadas para o projeto.
Mais informações sobre os parceiros idealizadores e realizadores do projeto ABC: Aprender, Brincar, Cuidar:
Foto: Tetra Imagens/Gettyimages

Mais informações sobre a autora desta postagem: Eliana Pougy 

Por que contar histórias para bebês e crianças?

Ilustração: “Cradle of Love” by Kolongi

A importância dos primeiros contatos afetivos com as palavras

Como é possível transformar simples palavras em histórias inesquecíveis para as crianças? Mais do que textos memoráveis, ao compartilhar narrativas, compartilhamos sentimentos. Momentos de partilha de alegria, euforia e amor são guardados na lembrança desde muito cedo e a arte de contar histórias facilita que estes momentos sejam mesmo divertidos, amorosos, inesquecíveis.

E é claro que se devidamente apresentados à literatura adequada à faixa etária e interessante (não só para o ouvinte mas para os leitores que também devem se divertir com o texto, claro), o bebê vai querer ouvir cada vez mais vezes e por mais tempo a voz tão querida e conhecida mas que agora se dirige a ele num novo ritmo.

Para entender alguns aspectos da importância de usar livros e envolver os pré-leitores numa leitura, ou melhor, numa “escuta literária”, podemos começar com argumentos bem lógicos e práticos:

A importância de ler para bebês