Aqui você encontra a arte de contar histórias (storytelling)
entrelaçada à educação, literatura, brincar, educação ambiental e cultura de paz.

História Nasrudin: O oposto da verdade

 

Recontada por Fabio Lisboa

Um dia, um homem com roupas simples e o rosto coberto com um capuz adentrou a casa de chá e se dirigiu ao mestre sufi Nasrudin, buscando a verdade:

Rubem Alves: Andar de manhã


Por Rubem Alves

Durante as duas últimas semanas tenho começado os meus dias cometendo um furto. Não sei como evitar esse pecado e, para dizer a verdade, não quero evitá-lo. A culpa é de uma amoeira que, desobedecendo as ordens do muro que a cerca, lançou seus galhos sobre a calçada. Não satisfeita, encheu-os de gordas amoras pretas, apetitosas, tentadoras, ao alcance de minha mão. Parece que os frutos são, por vocação, convites a furtos: basta mudar a ordem de uma única letra… Penso que o caso da amoreira comprova esta tese linguística: tudo tem a ver com o nome. Pois amora é a palavra que, se repetida muitas vezes, amoramoramoramora, vira amor. Pois não é isso que é o amor? Um desejo de comer, um desejo de ser comido… O muro, tal como o mandamento, diz que é proibido. Mas o amor não se contém e, travestido de amora, salta por cima da proibição. Foi assim no Paraíso… Os poucos transeuntes que passam por ali àquela hora da manhã talvez se espantem ao ver um homem de cabelos brancos colhendo amoras proibidas. Mas, se prestarem bem atenção, verão que quem está ali não é um homem com cerca de 70 anos, é um menino. E como o próprio filho de Deus que disse que é preciso voltar a ser menino para entrar no Reino dos Céus, colho e como as amoras com convicção redobrada. E para que não pairem dúvidas sobre a inspiração teologal do meu ato, enquanto mastigo e o caldo roxo me suja dedos e boca, vou repetindo as palavras sagradas: “Tomai e bebei, este é o meu sangue…”. Ah! A divina amora, graciosa dádiva sacramental! Começo assim meu dia, furtando o fruto mágico que opera o milagre por todos sonhado de voltar a ser criança.

Viagem Literária 2014 - Entrevista com o Contador de Histórias

Por Fabio Lisboa

Entrevista do contador de histórias e autor Fabio Lisboa para o repórter Thiago Barreto sobre a Viagem Literária, programa da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.

Quais as suas expectativas para a Viagem Literária deste ano?

Grandes expectativas, afinal, neste ano me propus a contar a história de meu livro, O Mistério Amarelo da Noite, que é baseado em fatos que ocorreram na minha infância. Bem, claro que os fatos foram recheados de imaginação e aventura. E, na hora de contar, convido os ouvintes a se aventurarem comigo no lugar mais escuro e assustador do meu imaginário infantil: o Beco Escuro! A ideia é que, ao "entrar" neste local fictício, cada ouvinte leve tanto seus próprios medos quanto sua luminosa coragem. E assim, embarcarmos nesta Viagem Literária!

Como surgiu a vontade de se tornar um contador de histórias?

Fábula Africana: A Tartaruga e o Leopardo


Reconto da tradição oral por Fabio Lisboa

Um dia, na savana, o Leopardo, de tocaia, surpreendeu a Tartaruga. Apareceu com suas garras e dentes bem na frente da pobre e num segundo, poderia devorá-la.

- Não me mate ainda, não tenho escapatória, mas ó, grandioso e piedoso, Leopardo, conceda-me um último pedido.

- Uh, desde que não vá longe. E nem se demore. Estou com fome! Qual o seu derradeiro pedido, Tartaruga, antes que eu te devore?

- Deixe-me andar até ali e espalhar a terra.

- Está bem.

A Tartaruga deu dois passos, esfregou as patas para todo lado, depois rolou de um lado pro outro e, tanto quanto possível, saltou e caiu pesadamente no solo. Foi então de volta às garras do felino - que já estava com a boca salivante. Bem de perto, a Tartaruga orgulhosamente declarou:

- Pronto, príncipe das savanas, pode me comer.

- O prazer é todo meu, Tartaruga. Mas antes, me conte, por que este pedido tão estranho? O que fez ali?

- Quando meus filhotes verem o meu cadáver morto no chão, próximos a estas marcas, eles e os outros animais da savana saberão que a Tartaruga não se rendeu facilmente. Se lembrarão de que o menor enfrentou o maior e que, talvez um dia, uma Tartaruga possa sobreviver ao ataque de Leopardo. A minha história será lembrada e isto dará aos pequenos esperança.

Quando a pequena quelônio terminou sua fala, o grande felino não estava mais salivante e sim com os olhos úmidos. O famigerado impiedoso perdeu a fome e seu coração de Leopardo se alimentou de compaixão. Poupou a corajosa Tartaruga que o enfrentou, não com garras e dentes, mas com as bonitas palavras que saíram de sua boca.

E assim, não só a Tartaruga mas a sua história sobreviveu.

Reconto de Fábula da África por Fabio Lisboa
Referências
Livros:
Chinua Achebe – Anthills of Savannah.
Dan Yashinsky – Suddenly they heard footsteps: Storytelling for the 21st century –University Press of Mississipi, 2006.
Imagem:
"Psammobates geometricus", espécie de tartaruga de água doce, encontrada na África do Sul, ameaçada de extinção.

Sessão de Contos:
Histórias Africanas: Justiça na Savana
O contador de histórias Fabio Lisboa reconta narrativas selecionadas por Nelson Mandela (Meus Contos Preferidos), Hugh Lupton (Histórias de Sabedoria e Encantamento) e Rogério Andrade Barbosa (Três Contos Africanos de Adivinhação). As histórias escolhidas tratam de traição, justiça e redenção.

No 10º Festival A Arte de Contar Histórias nas bibliotecas públicas de São Paulo, consulte a agenda do blog sobre os locais, de 11 a 19 de outubro de 2014.

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Rubem Alves – Empatia: É assim que acontece a bondade



Por Fabio Lisboa

A experiência da leitura de Rubem Alves pode nos despertar para experiências cotidianas tanto menos indiferentes, desérticas, embotadas e solitárias, quanto mais enriquecedoras, cheias de vida, emotivas e solidárias. O autor nos convida a olhar o mundo com os olhos do outro. A sermos mais empáticos. Menos frios. A enxergar a história do outro, mesmo que seja triste.

Se o contador de histórias é a história que conta, e o outro também se conta (e se encontra) aí nesta mesma narrativa, podemos ser então, ao narrar, ao mesmo tempo, nós e o outro. E assim, neste espaço comum, com nossas emoções compartilhadas e nossa capacidade de buscar finais felizes, talvez possamos tornar a nossa história – e a do outro - menos triste.

Vistas por este prisma, narrativas podem mesmo iluminar quem está na escuridão? Podem ensinar algo a quem não quer nem saber? Acredito, como Rubem Alves, que as palavras podem, sim, ser capazes de alegrar e trazer a primavera até para as areias e gelo... E quando isso acontece...

É assim que acontece a bondade
Por Rubem Alves

Contador de Histórias/Autor no Programa Universo Literário




Pareceu-me um bate-papo sobre a vida e os contos, um conta-causos no alpendre da casa, regado à leite quente e pão-de-queijo, mas foi uma entrevista ao vivo para a rádio UFMG Educativa, Programa Universo Literário, pela jornalista, bibliotecária e apresentadora (com seu simpático sotaque mineiro) Rosaly Senra.

Falamos sobre o meu livro “O Mistério Amarelo da Noite”, sobre literatura infantil, sobre os caminhos da criação literária e do contar histórias e, também, claro, contei histórias. Uma delas de terror, que ouvi muitas vezes meu avô contar, “Sozinho no Cemitério” e a outra, um trecho do livro.

A conversa durou 18 minutos e foi realizada no dia 21 de julho de 2014.

O programa de rádio da Universidade Federal de Minas Gerais idealizado pela Rosaly Senra pode ser ouvido pela internet neste link

Espero que ao ouvir, você também se lembre das conversas com os avós, dos contos - tão saborosos quanto pães-de-queijo - lidos pelos pais ao pé da cama, dos tempos de se imaginar as histórias - tão calorosas quanto chocolate quente - ouvidas nas ondas do rádio ou nos alpendres das casas.

Consegue se lembrar? Ou imaginar? Então, conduzidos por estas ondas de outrora chegamos, enfim, no agora, não?

É só clicar:

Fabio Lisboa
Referências

O Mistério Amarelo da Noite

Nelly Novaes Coelho comenta sobre o “O mistério amarelo da noite”

O Tradicional e o Novo ao Contar Histórias

Book Trailer





Rubem Alves: Homenagem à Amizade


Por Rubem Alves

Lembrei-me dele e senti saudades... Tanto tempo que a gente não se vê! Dei-me conta, com uma intensidade incomum, da coisa rara que é a amizade. E, no entanto, é a coisa mais alegre que a vida nos dá. A beleza da poesia, da música, da natureza, as delícias da boa comida e da bebida perdem o gosto e ficam meio tristes quando não temos um amigo com quem compartilhá-las. Acho mesmo que tudo o que fazemos na vida pode se resumir nisto: a busca de um amigo, uma luta contra a solidão...