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Contos de fadas e a palavra do contador de histórias: Silhuetas no clarão dos tempos (parte 1 de 2)

Imagens do filme Príncipes e Princesas (1989-2000), de Michel Ocelot
por Fabio Lisboa
 
Em tempos de luzes que iluminam a noite, de meios de comunicação e conexão on-line que nos fazem passar noites em claro, e de holofotes voltados para banalidades e tragédias da vida real, será possível enxergarmos sutilezas e belezas na penumbra da imaginação?


Sim. Mas não é possível acessar ou entender o que se passa em nossa penumbra imaginária apenas recebendo o que vem de fora para dentro. Isto é, não dá pra vivenciarmos uma profusão de imagens sendo criadas por nossa subjetividade assistindo a um noticiário ou uma novela de TV. Nestes gêneros, as imagens, a construção de ideias e a “moral da história” já vem prontas (de fora), logo, não são verdadeiramente nossas.

O exercício de reflexão e de criação quase desaparecem de nosso rol de capacidades internas se nos deixamos bombardear a todo o momento pela comunicação de massa como a da TV. Até mesmo a nossa capacidade para o diálogo fica prejudicado quando as atenções ficam voltadas para as telas luminosas enquanto decidimos ignorar (ou sem perceber não vemos mesmo) a realidade e as pessoas à nossa volta.

Mas se os excessos de luz e vozes virtuais nos cegam para as imagens do nosso próprio pensamento e nos ensurdecem para o diálogo com o outro, por outro lado, a palavra do contador de histórias, em especial quando este dá voz aos contos de fadas (tradicionais ou originais), tem um grande poder de comunicação, o poder de conseguir a atenção dos ouvintes abrindo pontes sensoriais (auditivas, visuais, emocionais...) entre eles, ao mesmo tempo em que permite a todos refletirem e criarem por si só.

“O homem contemporâneo, sobretudo o urbano, (...) precisa do outro ao “alcance das mãos”, um outro que se “dirija a mim, que me olhe, me emocione.” Walter Ong[1]

E como o narrador tradicional consegue tudo isso? Ora, porque ele não ofusca a visão dos participantes com imagens prontas e desconexas do eu-criador de cada um. A construção das imagens se dá no momento da performance e respeita o entendimento dos que escutam a história que, portanto, conectam-se ao narrador, à narrativa e às suas subjetividades, imaginando o enredo a partir das palavras ouvidas.
“Tanto os mitos como os contos de fadas respondem a questões eternas: O que é realmente o mundo? Como viver minha vida nele? Como posso ser eu mesmo de verdade? As respostas dadas pelos mitos são definitivas, enquanto o conto de fadas é sugestivo; suas mensagens podem implicar soluções, mas nunca as soletra. Os contos de fadas deixam à fantasia da criança o modo de aplicar a ela mesma o que a estória revela sobre a vida e a natureza humana.” Bruno Bettelheim [2]

Para que os contos cumpram esta função sugestiva na qual os ouvintes criam suas próprias imagens - e o seu modo de aplicá-las (ou não) à vida – para que haja reflexão, criação e conexão as palavras do contador de histórias podem ser traçadas como silhuetas.

Se eu digo que “O castelo do rei de olhos azuis era repleto de janelas e estas, emolduradas de pedras azuis, refletiam a imensidão do mar, enquanto os olhos do monarca na janela... refletiam um triste oceano.”[3], cada leitor vai imaginar qual era o tipo de tecido do manto azul do rei, qual era o estilo de torres e formas do castelo, preenchendo o mesmo com a textura das pedras que quiser e os tons de azul que inventar. Os leitores poderão também ambientar esta paisagem de sentimentos ao se perguntarem por que o rei enxergava um mar triste...

A partir destas silhuetas fornecidas pela voz narradora, cada um cria as imagens do texto, então uma imagem - que aparentemente poderia ser tratada como simples demais - traz em si inúmeras versões dela mesmo.

Todavia, o excesso de descrição de uma cena “do rei de manto de veludo azul marinho e de olhos azuis piscina, cujo castelo tinha cinco torres azuis escuras, era repleto de janelas emolduradas de pedras azul turquesa que refletiam a imensidão do mar azul esverdeado, enquanto o monarca, com olhos tristes, olhava para a sua imensidão azul....” pode colocar excesso de luz na silhueta almejada, cansando a vista de quem é obrigado a ver as imagens da trama exclusivamente com os olhos do narrador que conta o conto.

A diferença parece sutil mas não é: no caso dos olhos do narrador excessivamente azuis desta segunda versão, o leitor não teria tanta liberdade de criar seu próprio cenário físico e sentimental para a cena – afinal, tudo no cenário “criativo” já está colorido e já está até determinado que os olhos do rei estão tristes.

O desafio do contador de histórias (ou escritor) é engajar os ouvintes (ou leitores) fazendo com que estes sintam-se como o personagem - sem necessariamente contar como o personagem está se sentindo. Encarar este desafio é conduzir (e intrigar) os que nos escutam com a beleza... das silhuetas.

Delineando a metáfora da silhueta com nossas palavras, nós, narradores, damos poder para cada um iluminar e enxergar a narrativa do seu jeito. Daí nasce o belo duradouro, emanando da criação individual e coletiva, a partir de uma sutil penumbra inventiva que conecta narrador e ouvintes. Em outras palavras, ao apropriarmo-nos desta metáfora, apresentaremos os contornos dos personagens e os ouvintes se encarregarão de lhes colorir e completar suas formas.

(na continuação - parte 2 deste post - o exemplo prático do uso desta metáfora num filme de animação)

por Fabio Lisboa (www.contarhistorias.com.br)



[1] ONG, Walter. Oralidade e cultura escrita. Campinas: Papirus, 1998, p. 223 - In: Matos (2005)
[2] Bettelheim, Bruno, A Psicanálise dos Contos de Fadas - Tradução de Arlene Caetano – São Paulo: Editora Paz e Terra, 16a Edição, 2002, p. 47.
[3] Lisboa, Fabio – O rei de olhos azuis e o mar que tudo via – (ainda sem editora).

2 comentários:

Carla Betta disse...

Belo texto! Que delícia! Já quero ler a segunda parte... E que filme é este? Não o conheço e fiquei na maior curiosidade! Lindas imagens! Abraços! Continue nos deliciando com seus escritos!

Fabio Lisboa disse...

Oi Carla,

Obrigado pelo incentivo. Um episódio do filme com certeza fará parte do próximo curso, vale a pena conhecer esta obra de arte do Ocelot e melhor ainda se for com as emoções multiplicadas pelo grupo!

A segunda parte já está no ar, eu só não pus o link pois seria impossível publicar a primeira já com o link da segunda, hahaha, mas agorá dá, vou corrigir isso (é só copiar o link ou entrar pela pesquisa digitando "Contos de Fadas"):

http://www.contarhistorias.com.br/2013/04/contos-de-fadas-e-palavra-do-contador_29.html

Bjs, Fabio

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