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Contos de Fadas: espelhos mágicos da alma (parte 1 de 3)

Ilustração de Bruna Assis Brasil em Branca de Neve e as Sete Versões. 


Os olhos humanos de uma sociedade que exageradamente se vê através de olhos eletrônicos coletivos são suficientes para nos enxergar como indivíduos? Neste contexto, os nossos sonhos são traçados por nós ou por outros para nós?

Os contos de fadas reforçam valores humanos ainda essenciais ou ideias antiquadas que não servem mais para nada nos dias de hoje? Será que estas histórias tão antigas podem mesmo refletir as profundezas da psique humana e por isso tornaram-se imprescindíveis na construção do nosso “eu” e na conexão com o outro?


Para começar a responder a estas colocações, tudo depende da roupagem com o qual  revestimos os contos pois a conexão (ou não) com os ouvintes contemporâneos depende da forma com que a narrativa arcaica é recontada.  Esta roupagem, esta camada externa de palavras do texto e prosódia do contador de histórias permitirá ao ouvinte “experimentar” se a vestimenta serve ou não.

Se houver identificação com o conto, ou seja, se ele servir, acontece uma mágica. O ouvinte não só começa a se ver melhor. Ele ou ela começam a se ver de ângulos novos pelos quais nunca tinham se imaginado.

Por fim, nós, contadores de história e ouvintes, começamos a enxergar diferenças superficiais mais sutis e grandes semelhanças de nossa psique humana. Ao enxergar nossas essências percebemos que somos muito parecidos. Ao enxergar o cerne de um conto de fadas percebemos que eles também são parecidos.

A essência destas histórias trata de virtudes e fraquezas universais e atemporais como amor, gratidão, esperança, egoísmo, beleza, vaidade, inveja, fuga ou descoberta do “eu”, entre outros temas.

No entanto, a forma com que este núcleo do conto é recontado (e trazido ou não à tona) é variável e pode reforçar modos de ver o mundo que não cabem mais nos olhos da sociedade contemporânea ou apresentar modos cabíveis ou ainda novos modos não experimentados de observar e apreender a realidade e a fantasia.

Neste artigo, vamos olhar de perto dois contos de fadas analisando como o seus núcleos temáticos são recontados e podem mostrar um pouco de como somos ou desejamos ser. No clássico “Branca de Neve”, a rainha madrasta deseja ser (e é) a mais bela mas precisa se olhar num espelho mágico para que este valide quem ela é:

“- Espelho, espelho meu, existe alguém neste reino mais bela do que eu?”.

A beleza só não basta. É preciso ser mais bela do que as outras. E se faz necessária também a validação do outro – no caso, de uma figura masculina – que é quem tem a palavra final sobre se a rainha é a mais bonita ou não. Ainda a ditadura do outro sobre a beleza feminina parece persistir.

A adolescente do novo milênio ainda precisa olhar-se no espelho dos olhos dos outros para validar a sua aparência: “modele o seu cabelo assim, assim; pinte as unhas assim, assado; use roupas assim, assim; só compre marcas assim, assado.”

Em seu livro Spinning Straw into Gold (Tecendo da palha o ouro: o que os contos de fada revelam sobre as transformações na vida da mulher) Joana Gould questiona:

“Como e quando a mulher começa a conhecer o seu ser sexual individual? Ao olhar-se no espelho, especialmente durante a adolescência. que por sinal não é o jeito que os garotos aprendem a se conhecer. As adolescentes se olham em espelhos o dia todo para encontrar como os outros as veem, qual o impacto elas terão no mundo ao redor delas, o que pode ser melhorado, projetado melhor ou vai ter que esperar, e ainda o que pode ser apenas lamentado – críticas pela voz do espelho que mudam a todo o momento.
(“Uma tábua, seca,” diz o espelho. “Ainda sem curvas! Você nunca vai ter um homem, não com estas minúsculas ondinhas que você chama de seios. Por que você não repensa o seu cabelo? Uma escova progressiva – poderia ajudar. Ou clareamento. E não fique aí se escondendo como uma nerd. Você quer ser vista... Assim é melhor. Quer saber uma coisa? Você tem potencial, garota. O seu dia está chegando.”).

(...)

Branca de Neve é uma história sobre a aparência, sobre ver e ser visto, um conto brilhante sobre sabedoria, neve, um espelho e um caixão feito de vidro. As mulheres neste conto são uma boa mãe olhando pela janela a neve caindo, uma mãe má que olha apenas para o seu próprio reflexo no espelho, e uma filha que deita quieta como se estivesse morta e é vista. Mas qualquer história que lida com a aparência e o olhar é necessariamente uma história sobre o tempo, que é a força que supera a beleza.”[1]

A beleza, a vaidade e a passagem do tempo desafiando a ambas, sem dúvida, continuam temas relevantes para o nosso tempo. Mas as relevâncias temáticas não param por aí.

A autora ressalta o momento em que o caçador está prestes a matar Branca de Neve. Ele é como um pai passivo que obedece aos desejos mais egoístas e até cruéis da mãe (ou madrasta). Então na última hora, ele sente compaixão e introduz uma nova possibilidade para a princesa, a fuga.

Se há uma nova possibilidade, um novo ponto de vista, então pode haver vários, portanto, nenhuma ameaça inevitável é mais tão temível e pode até mesmo ser evitada.

A possibilidade de falar mais alto do que as ameaçadoras vozes dominantes e a possibilidade de chegar a um final feliz também serão importantes em nossa jornada rumo ao autoconhecimento e à realização pessoal.

Os contos de fadas podem nos ensinar a ver além do óbvio, além do que o outro diz, a ouvir além do que a voz do espelho diz.

Na continuação deste artigo (no próximo post) vamos analisar como fazer ver adiante do que é evidente ao recontar a famosa aventura de “Branca de Neve” e um conto de fadas escocês não muito conhecido por aqui.


Referências

Imagem
Ilustrações de Bruna Assis Brasil in Torero, José Roberto -Branca de Neve e as Sete Versões / José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta; ilustrações: Bruna Assis Brasil – Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

Livros
Grimm, Jacob – Contos dos irmãos Grimm / organizado, prefaciado e selecionado pela Dra. Clarissa Pinkola Estés, tradução de Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

Torero, José Roberto -Branca de Neve e as Sete Versões / José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta; ilustrações: Bruna Assis Brasil – Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

Gold, Joan - Spinning straw into gold: What Fairy Tales reveal about the transformations in a woman´s life - Random House: New York, 2006, p. 6.


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Próximo post: Contos de Fadas: espelhos mágicos da alma (parte 2 de 3)




[1] Trecho extraído e traduzido por Fabio Lisboa de Gold, Joan - Spinning straw into gold: What Fairy Tales reveal about the transformations in a woman´s life - Random House: New York, 2006, p. 6-7.

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