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Contos de Fadas: espelhos mágicos da alma (parte 2 de 3)

Capa e ilustração de Bruna Assis Brasil em Branca de Neve e as Sete Versões.

  por Fabio Lisboa

Em seu livro “Branca de Neve e as Sete Versões” o escritor José Roberto Torero conta que um dia a princesa acordou mais bela que a rainha madrasta. Neste dia, esta foi até o espelho mágico e perguntou:

“- Espelho, espelho meu, existe alguém no mundo mais bela do que eu?

E agora: O que você acha que acontece? Se você quer que o espelho minta vá para a página 08. Se você quer que o espelho diga a verdade, vá para a página 10.”[1]

Com este recurso, o autor dá ao livro um caráter interativo e contemporâneo. Interativo ao colocar o leitor numa privilegiada posição de co-autor - já que este tem autonomia para decidir os rumos da trama (neste e em outros pontos da narrativa). E contemporâneo ao convidar o leitor a imaginar comparações com a sociedade atual - como seria a vida da princesa se ela (que gostava tanto dos anões, do campo e dos animais) se casasse com o príncipe (preocupado apenas com o que a corte iria pensar e que não aceitaria mais os anões e nem os modos de camponesa da princesa em seu castelo), será que Branca de Neve pediria o divórcio e mudaria de profissão (de princesa a veterinária)? A estas perguntas Torero responde nas páginas 40 e 46.

Mas vamos dar uma espiadinha na página 08 para ver como fica a resposta do espelho mágico mentindo se havia alguém no reino mais bela no reino, dizendo sempre exatamente o que a rainha queria ouvir:

“- Não majestade, ninguém é mais bela do que vós.
O espelho continuou mentindo todos os dias, mesmo quando a madrasta já era velha e feia. Mas ela continuou acreditando em suas palavras, porque tem gente que acredita em qualquer mentira, desde que seja a seu favor.”[2]

Será que devemos acreditar cegamente no que os outros dizem? O que os espelhos eletrônicos do entretenimento cultural (como a TV) ditam sobre a nossa aparência e caráter? Vale a pena seguir o que nos é dito? Vale a pena mentir para agradar o outro? Mesmo sem que perguntas como essas estejam sendo feitas diretamente pelo narrador, o leitor engajado busca respostas.

Ao ler um texto bem escrito ou ouvir um conto bem contado buscamos respostas às perguntas intrínsecas ao drama dos personagens e à trama da história. Estas questões se revestem de infinitas variações de duas perguntas essências: Quem eu sou? Quem eu quero ser? Ambas perguntas filosóficas que podem ser entendidas como núcleos temáticos.

Outro conto de fadas que lida com estas duas perguntas é a história – tradicional na Escócia – do rei que mata a todos que descobrem um segredo acerca de sua aparência física. Será que um dia o monarca vai aceitar a sua peculiaridade e mudar a sua personalidade?

Ao recontar “ O Rei que tinha orelhas de cavalo” o nosso foco não será em “deficiência físicas” e sim em “deficiências do caráter”. Por isso, inserimos um elemento mágico - comum nos contos de fadas, claro. Trata-se de um espelho que faz crescer estas orelhas no rei refletindo o seu “real” comportamento.

Ao começar a ver de fato o que ele representa, talvez o rei comece a mudar interiormente e isto talvez gere uma mudança externa.

No post seguinte será possível vislumbrar se o rei continua ou não com orelhas de cavalo – tanto no conto original como no reconto – e refletir o que sua lenda medieval tem a ver conosco.

Estas histórias centenárias, se revisitadas, revistas e recontadas, nos ajudam a entender e assumir quem somos hoje e quem podemos ser no dia seguinte.  Os contos de fada são espelhos reveladores de nossa alma. Nos ajudam a lidar com nosso defeitos aparentes e a aprimorar nossos talentos escondidos.

Um conto bem construído também contribui para construir nossos valores, para  refletir sobre eles e até mesmo para questioná-los. Os nossos valores são a essência de quem somos hoje.

Ao descobrir e aceitar quem somos temos a chance de encontrar quem podemos ser.

E mais, estas histórias são como fachos de luz nas profundezas de nossos sonhos esquecidos e podem iluminar o nosso caminho de encontro a quem queremos ser. Os contos de fadas (e a literatura de um modo geral) podem nos ensinar a pensar e a sonhar por nós mesmos – o que, sem sombra de dúvida, não é uma missão fácil numa sociedade de espelhos de imagens prontas, em outras palavras, de opiniões e desejos massificados e pré-moldados.

Assim, aprendendo a caminhar por mundos fantásticos, carregando nossos sonhos conosco, não mais caminhamos rumo ao “eu” que os outros querem que eu seja e sim rumo ao “eu” que eu quero ver.


Afinal, quem disse que um rei não pode ter orelhas de cavalo e que uma rainha precisa ser a mais bela de todas?

Quem disse que não é possível recontar o que nos contam? E recontando, quem sabe se, ao reconstruir o nosso modo de ver o mundo, ao olhar para os nossos espelhos coletivos e ver mais do que aparências, consigamos enxergar a beleza das diferenças exteriores e as semelhanças da alma.


Referências

Imagem
Capa, projeto gráfico e ilustrações de Bruna Assis Brasil in Torero, José Roberto -Branca de Neve e as Sete Versões / José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta; ilustrações: Bruna Assis Brasil – Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

Livros
Grimm, Jacob – Contos dos irmãos Grimm / organizado, prefaciado e selecionado pela Dra. Clarissa Pinkola Estés, tradução de Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

Torero, José Roberto -Branca de Neve e as Sete Versões / José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta; ilustrações: Bruna Assis Brasil – Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

Gold, Joan - Spinning straw into gold: What Fairy Tales reveal about the transformations in a woman´s life - Random House: New York, 2006, p. 6.


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[1] Torero, José Roberto -Branca de Neve e as Sete Versões / José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta; ilustrações: Bruna Assis Brasil – Rio de Janeiro: Objetiva, 2011, p. 7.
[2] Torero, José Roberto -Branca de Neve e as Sete Versões / José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta; ilustrações: Bruna Assis Brasil – Rio de Janeiro: Objetiva, 2011, p. 8.

2 comentários:

Débora Nazari disse...

Adorei Fabio! Muito pertinente a discussão. Nas histórias de fantasia, que hoje se chamam o popular conto de fadas, a variante mítica pode mudar, por exemplo, o monstro da história, a característica do personagem, mas o importante é não perder o essencial da personagem. Por isso, a madrasta má ou o rei podem sim, ser diferentes na história contada em N maneiras, mas o seu valor e o que eles nos passam continua. Adorei a reflexão.

Fabio Lisboa disse...

Interessante o seu comentário, Débora. Isto nos trazem os (espelhos) contos de fadas e textos (e comentários) sobre eles: reflexão. A partir da reflexão, leitores criticos como vc podem tentar enxergar o essencial contido nos contos e personagens, (se conseguir, nos conte, rs!), e que, ao meu ver, até este essencial às vezes pode ser mutável de acordo com os olhos de quem mira o conto, abs,

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