“Só o futebol – e as histórias - nos fazem sentir aos
60 anos o mesmo que sentimos aos 6”.* Por Fabio Lisboa
1o tempo
Um poema, uma história-dilema (ou de amor), dois
times, um par de opostos, boa dose de emoção, epifania, drama e dor, com tramas
intrigantes, personagens esféricos e complexos, futebol é tudo isso e, além
disso, um belo paradoxo.
Porque ainda que, com certos sustos e rabiscos
desconexos, menosprezos esparsos, pisadas na bola e pesadelos (faz parte), acima
de tudo, futebol é sonho, Futebol é Arte. Inclusive porque, enraizado no
esporte mais popular do mundo, nos gramados e fora deles, está a Arte de Contar
Histórias. E é disso que vamos falar aqui, ainda que de forma sutil, tratando o
leitor ou ouvinte como companheiro de time, pra que, juntos, tomemos conta do
jogo, atacando em leque e defendendo em funil. Entrando com o pé direito e
saindo com o êxtase de um gol, de uma lembrança querida de infância, dos amigos
dos times, com cheiro de grama recém cortada pro espetáculo no estádio (ou no
quintal), e todo mundo (e o mundo todo) cabendo numa bola de meia ou de
capotão, celebrando e gritando...
“Pra frente,
Brasil, Brasil, salve a seleção”, da narração à
comemoração, do grito de guerra ao grito de gol, do conflito da narrativa à
resolução final - ao menos para um dos lados, feliz. Da rivalidade das cidades,
países e culturas e, ao mesmo tempo, da união dos povos, do respeito ao
adversário pois, dentro das quatro linhas, somos todos irmãos. Ou ao menos,
esta é a história que todos querem - ou deveriam querer - contar. Pelo menos
foi o que o meu pai me ensinou e o que o seu Dondinho, jogador aposentado,
contou ao filho, estreante no time do Santos, “No campo, são todos iguais”. O
filho dele levou à risca, tratava os companheiros como irmãos, respeitava e não
fazia distinção de adversário (nem que fosse poderoso ou imbatível), não tinha
medo de ninguém, nem de marcação individual ou de mais de um marcador, pois era
o Edson, chamado de Dico, que depois virou rei, o Rei Pelé, que fez mais de mil
gols. E foi o protagonista ao fazer o Brasil entrar pra história, ao menos até
aqui, como o País do Futebol.
Intervalo
Pois eis que cabe no vestiário, no campo, no
imaginário das histórias e no paradoxo futebolístico a correria e também o
descanso, a coragem e a rapidez (sem rispidez ou afobação), a troca de passes
entre os jogadores (ou narradores e ouvintes) e a concentração individual. E se
estiver bom o jogo, e precisando de um desempate, o povo até torce pela
prorrogação, uma disputa de pênaltis e uma nação em silêncio para ver e ouvir o
que está por vir.
Então Futebol é também descoberta e identidade que,
como uma narrativa ressoante em nós, conta quem somos ou - se aprendemos a
imaginar - quem poderíamos ser. Identificação a qual, para a maioria dos
brasileiros, sermos bons de papo e de bola, é motivo de orgulho, pois ressalta
a nossa garra, criatividade, espontaneidade, hospitalidade, o poder do nosso
imaginário e da nossa ginga – inclusive a da nossa fala, que escalou para a
língua portuguesa expressões, entonações, construções linguísticas de muitos povos
e, em especial, da África e da nossa terra, dos povos originários.
Assim, a torcida canta e toca o bumbo, levando o
atacante e os narradores no embalo - a própria ginga é palavra africana, quimbundo,
que destaca a capacidade de desafiar os senhores-de-engenho na capoeira - e a nossa
capacidade enquanto nação de desviar das dificuldades e dos adversários, de
criar o futebol “moleque” (e olha aí, outro verbete africano de raiz banta na
área). E desse jeito, o futebol nos forma e denota a nossa aptidão para o
brincar, criar, emocionar, superar desafios, a ter fome de gol, comer a bola e
tecer o fio da meada de uma história bem contada, dessas que nos convidam a
querer virar a página e continuar lendo (ou ouvindo) e sede de saber o que vem
a seguir.