Deixa eu te contar uma…
Desde criança, aprendemos na geometria: a menor distância entre dois pontos é uma linha reta.
Funciona no papel. Mas, nos papéis da vida, nem sempre. Uma reta não necessariamente nos conecta.
Talvez porque pessoas não sejam pontos fixos. Mudamos enquanto caminhamos. E, ao caminhar, os caminhos também se fazem. Cada um de nós carrega experiências, emoções, memórias, ancestralidade e expectativas como instrumentos de navegação e toda essa bagagem influencia o traçado rumo ao futuro - conectando nossas lendas pessoais ao destino comum da humanidade.
Tudo isso influencia o traçado — aproxima ou afasta, cria desvios, atalhos, abismos e forças invisíveis também nos conduzem.
Como na física, em que nem sempre o caminho mais curto é o mais rápido, também nas relações o que importa não é apenas a distância — mas o percurso possível entre dois mundos.
Qual é a menor distância entre duas pessoas (ou dois povos) em guerra? Nem que seja a um passo de uma trincheira ou fronteira, ou a uma porta fechada de distância, mesmo a poucos centímetros uns dos outros, às vezes nos sentimos a anos-luz de distância. Na verdade, normalmente, quem trava e sustenta a guerra são os que não participam dela. Também ficam a distância. E distanciam os povos.
E qual é a menor distância entre pais e filhos que não se entendem? Não é uma casa. Podem viver sob o mesmo teto e, ainda assim, não se encontrar.
E entre um casal? Também não é a casa ou os corpos. Podem estar muito próximos — e ainda assim, gritar para serem ouvidos. Num conto chinês, as pessoas que se amam estão ligadas por um fio invisível entre os corações. Quando esse fio se estica, ou seja, quando os corações se distanciam, o casal tenta gritar pra se fazer ouvir sendo que bastaria aproximar os corações novamente e bastaria, então, sussurrar.
E entre um(a) professor(a) e um(a) aluno(a)? A menor distância entre eles não é uma sala, um caderno ou um livro fechado. Por outro lado, no momento em que o livro é aberto, lido e uma história começa a ser desvendada, os corações e as mentes também se abrem e se conectam.
Na física, a observação depende do referencial. O espaço pode se curvar. Talvez o espaço entre duas pessoas também. E ele é moldado por forças tão reais quanto invisíveis: escuta, empatia, abertura, presença.
Parafraseando Pierre Weil, “a comunicação é a expressão vital de quem somos, que visa o entendimento mútuo e que encontra a sua potência máxima no amor”. Tudo isso muda a premissa inicial matemática.
Na gramática da vida, talvez a menor distância entre duas pessoas não seja medida em metros, mas na qualidade da conexão que se estabelece entre elas. E é aqui que entra a narrativa.
Histórias criam identificação.
Abrem escuta.
Constroem pontes.
Permitem que alguém acesse a experiência do outro sem precisar percorrer o mesmo caminho. Por isso, na educação, na mediação de leitura e na cultura de paz, a história não é apenas um recurso estético. É um caminho real de aproximação.
Quando uma história acontece de verdade, algo entra em sintonia.
Como cordas que vibram juntas.
Como uma voz que encontra eco em quem escuta.
Por um instante, quem conta, quem escuta e a própria história parecem se tornar uma coisa só.
Talvez seja isso. Antes que o silêncio nos separe, ainda nos resta um fio pulsante — desses que atravessam o tempo e o espaço. Desses que nos lembram que não estamos tão distantes assim.
Como escreveu Eduardo Galeano: “Um cientista me disse que somos feitos de átomos, mas um passarinho me contou que somos feitos de histórias.”
E talvez este passarinho tenha atravessado a américa e rodado o mundo pra contar pra todo mundo que, onde quer que estejamos, na extraordinária jornada de sermos humanos, estamos pertinho uns dos outros e podemos seguir conectados, abrindo novos caminhos - inclusive de ligação direta entre corações - principalmente, ao caminharmos pelas fabulosas trilhas narrativas da imaginação e da memória, afinal: A menor distância entre duas pessoas é uma história.
Por Fabio Lisboa
PS: Já esteve a centímetros de alguém e a anos-luz de distância? Nem toda proximidade é conexão.
E nem toda distância é física. Mas a física pode envergar o tempo-espaço – e as histórias também. Às vezes, o que falta não é tempo, nem espaço pra se conectar, é escuta.
💬 De quem você gostaria de estar perto hoje e parar pra ouvir?
Se for possível, conte a ela (e escute dela) uma história. Ou, se não for possível, simplesmente relembre. E a ponte se faz.Referências:
A frase que intitula o artigo traduz como muitos contadores como eu se sentem ao realizar o seu ofício e me foi generosamente apresentada pela parceira e mestra contadora de histórias e autora, Fabiana Prando e escrita por Jonathan Gottschall em sua obra The Storytelling Animal: How Stories Make Us Human (em tradução livre para o português: O animal contador de histórias: como as histórias nos fazem ser humanos), publicado por Houghton Mifflin Harcourt.
Por que contar histórias para bebês, crianças e adultos: Um novo paradigma para a humanidade*



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