Aqui você encontra a arte de contar histórias (storytelling)
entrelaçada à educação, literatura, brincar, educação ambiental e cultura de paz.

Por que contar histórias para bebês e crianças?

Ilustração: “Cradle of Love” by Kolongi

A importância dos primeiros contatos afetivos com as palavras

Como é possível transformar simples palavras em histórias inesquecíveis para as crianças? Mais do que textos memoráveis, ao compartilhar narrativas, compartilhamos sentimentos. Momentos de partilha de alegria, euforia e amor são guardados na lembrança desde muito cedo e a arte de contar histórias facilita que estes momentos sejam mesmo divertidos, amorosos, inesquecíveis.

E é claro que se devidamente apresentados à literatura adequada à faixa etária e interessante (não só para o ouvinte mas para os leitores que também devem se divertir com o texto, claro), o bebê vai querer ouvir cada vez mais vezes e por mais tempo a voz tão querida e conhecida mas que agora se dirige a ele num novo ritmo.

Para entender alguns aspectos da importância de usar livros e envolver os pré-leitores numa leitura, ou melhor, numa “escuta literária”, podemos começar com argumentos bem lógicos e práticos:

A importância de ler para bebês
“Ler em voz alta é uma das coisas mais importantes que os pais podem fazer para preparar a criança para ter sucesso na escola. Quanto mais palavras os pais usam quando falam com bebês de 8 meses, maior será seu vocabulário aos 4 anos de idade. Os livros contêm muitas palavras que não ocorrem na linguagem que falamos no dia a dia.”
Fonte: Reach Out and Read – editado da “Cartilha Primeira Infância Primeiras Leituras”, desenvolvido pelo IAB Instituto Alfa e Beto

No entanto, neste artigo vamos focar na importância da leitura e narração de histórias enquanto fator de fortalecimento do vínculo amoroso e da memória afetiva

Fanny Abramovich (licenciada em pedagogia pela USP, professora, jornalista e autora de diversos títulos da área educacional como “Literatura Infantil: gostosuras e bobices”) elabora e responde a pergunta:

Ouvir histórias é mesmo importante?

"Ah, como é importante para a formação de qualquer criança ouvir muitas muitas histórias... Escutá-las é o início da aprendizagem para ser um leitor, e ser leitor é ter um caminho absolutamente infinito de descoberta e de compreensão do mundo...

O PRIMEIRO CONTATO DA CRIANÇA COM UM TEXTO É FEITO ORALMENTE, através da voz da mãe, do pai, ou dos avós, contando contos de fada, trechos da Bíblia, histórias inventadas (tendo a criança ou os pais como personagem), livros atuais ou curtinhos, poemas sonoros e outros mais.. contados durante o dia , numa tarde de chuva, ou estando todos soltos na grama, num feriado ou domingo – ou num momento de aconchego, à noite , antes de dormir, a criança se preparando para um sono gostoso e reparador, e para um sonho rico, embalado por uma voz amada."[1]

Ao discorrer sobre a importância de contar e ouvir histórias a prof. Fanny nos apresenta mais do que argumentos lógicos, ela nos envolve de sensações e evoca a nossa memória afetiva.

Quem teve a emoção de ter ao seu lado pessoas amadas que lhes dirigiam a palavra para contar histórias antes de dormir, entende a força do vínculo criado por estes momentos de sonho-acordado. São tão especiais que, mesmo quando a criança cede rápida e tranquilamente ao sono, os momentos de narração/escuta ficam para sempre guardados num cantinho aconchegante da memória. É neste cantinho que se forma a resiliência que, por sua vez, nos faz adultos mais seguros, pacíficos e preparados para enfrentar situações difíceis. As pessoas que não tiveram esta oportunidade quando criança tem sempre uma nova chance de oferecer esta oportunidade para outras crianças. Para começar, basta propiciar um ambiente afetivo e pronunciar três palavras “era uma vez”...

É indiscutível a importância de envolver os bebês e crianças de afeto. Mas estes pequenos seres sensíveis captam a dedicação verdadeira – ou seja, por inteiro, como numa brincadeira ou contação de histórias; ou pela metade, quando o adulto divide sua atenção à criança com seus brinquedinhos pessoais como celulares ou outras distrações como um programa na TV. Em outras palavras, as crianças tem um sentido apurado para captar as provas de atos verdadeiros (ou não) de afeto.

Contar histórias é um ato que prova, de fato, o afeto. Mais do que afeto, esse ato, ao tornar-se hábito, será sentido como um ato de amor. E amar pressupõe entrega, envolvimento, vinculo, diálogo, escuta, afeição aceitação incondicional.

Ao dirigir a palavra das histórias às crianças estamos pondo em prática estes pressupostos amorosos. Ao narrar de forma lúdica estamos dedicando nossa voz e nossas brincadeiras sonoras a elas. Ao ouvir histórias a criança percebe que a palavra do adulto está sendo dirigida a ela não como palavra de ordem, mas como palavra (voluntária) de amor. Por isso CONTAR HISTÓRIAS É UMA PROVA DE AMOR!

Enquanto dura a contação da história, por alguns momentos, os pais, mães, cuidadores, educadores, contadores se desligam de seu mundo adulto e se conectam ao mundo infantil. Dando voz a príncipes, princesas, monstrengos, bruxas e animais que podem (aparentemente) ser de personagens de lugares e tempos distantes mas que vão, de alguma forma, dialogar com (e nos conectar ao) nosso aqui-agora (e ao nosso futuro).

Os contadores de história (profissionais ou voluntários, pais ou professores, jovens ou avós) que aceitarem descobrir o prazer deste aqui-agora encantado, vão cantar, se desdobrar em caras e bocas, se divertir, criar, colocar a narrativa em movimento até que o mundo das palavras narradas encante o mundo das crianças.

Assim, adentrando o mundo lúdico com verdade, amor e encantamento, ao contar histórias estaremos transformando palavras em memória afetiva.

Mais informações sobre a importância de Contar Historias para crianças você também encontra no  Projeto ABC Aprender, Brincar, Cuidar. Dicas de como contar histórias para crianças na idade da educação infantil.



[1] Abramovich, Fanny - Literatura Infantil: gostosuras e bobices. Ed. Scipione: São Paulo, 2009, p. 14

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