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O Messias está entre nós


Reconto: Fabio Lisboa

Por muitos anos aquela comunidade cristã viveu em harmonia. A rotina era simples: os monges acordavam cedo, oravam, meditavam, trabalhavam a terra garantindo o seu próprio sustento, liam, estudavam, conversavam, contavam histórias, em especial das Sagradas Escrituras, trocavam experiências, inclusive metafísicas e à noite cultivavam o silêncio até o novo amanhecer de orações.

A Verdade chega à cidade



Reconto de Fabio Lisboa baseado na versão de Clare Murphy

Era uma vez uma velha que há muito tempo era menosprezada numa cidade ávida por novidades. A mulher ficou tão esquecida por todos que começou a passar fome. Ficava mendigando pelas ruas em busca de alimento e quem sabe um pouco de atenção.

Naquele dia, decidiu bater nas casas. As pessoas quando viam o estado da mulher diziam logo:

História: Um bom lugar para construir um templo

  
Tradição oral - Reconto: Fabio Lisboa

 Deus estava à procura de um local sagrado para que ali se construísse um templo. Em Jerusalém, observou dois irmãos que colhiam trigo. Nesses dias, há mais de 4 mil anos, esses dois homens simples do campo presenciariam um milagre.

História: O Anel do Rei e a Justiça

História da tradição oral – reconto: Fabio Lisboa

Era uma vez, há muito tempo na África, no reino Monomotapa, um rei que era conhecido por buscar sempre a justiça e a verdade. Esse rei possuía um anel poderoso. Diziam que com o anel o rei podia enxergar a verdade até mesmo por trás de palavras falsas. E com a ajuda do poder do anel, a justiça sempre saia triunfante.

O anel havia sido forjado por artesãos de outros tempos e acompanhava os reis desde então. Era feito de ouro do rio Nilo, incrustrado com adornos de prata do rio Congo e cravejado de diamantes do rio Zambezi. O anel, assim como rei, representava a união de várias tribos da África, em especial das regiões que hoje conhecemos como Zimbábue e Moçambique.

Os chefes espirituais das várias tribos, que eram os responsáveis pela escolha do rei Monomotapa, viviam em certa harmonia, com exceção de Roswi, que não havia escolhido aquele rei, que questionava o seu poder e cobiçava o seu anel.

História: O que é justo...


Conto da tradição oral irlandesa recontado por Fabio Lisboa

Este conto relata o encontro de dois personagens irlandeses históricos que viveram no início do século XIX, um deles, um homem muito simples e injustiçado; o outro, um letrado advogado; incansável buscador de justiça.


Wilson Paddy Wood era um lenhador humilde e honesto que morava num pântano mas visitava quase todo santo dia a cidade vendendo um pouco de lenha a um preço justo e comprando o que comer e vestir. Mesmo vestindo roupas fora de moda e largas - que, aliás, combinavam com sua espessa barba, cabelo desgrenhado e com seu peludo jumento - era bem visto pela maioria, que se encantava com sua simplicidade e bom coração. Wilson dizia assim:

- O que é justo é justo: Madeira! Madeira! Pague o quanto puder! Se não puder, pague quanto puder - e quando puder!

Historia de Terror: Sozinho no Cemitério

 

Meu avô Luiz, quando jovem, morava na Rua Sergipe, bem em frente ao Cemitério da Consolação.

Muitas vezes, ao voltar para casa, fugindo da agitação paulistana de carros subindo e descendo a Rua da Consolação que já nos anos 30 do século passado parecia barulhenta, meu avô cortava caminho pela calmaria do meio do cemitério.

Às vezes era fim de tarde, à noite caia em meio à passagem pela necrópole. Muitas de suas histórias se passavam nesta passagem entre o mundo dos vivos e o dos mortos e vice-versa.

Seria impossível dizer quais histórias aconteceram de fato, quais eram provindas da tradição oral ou quais eram inventadas na hora por ele na hora porque ao recontar, parecia reviver todas as suas aventuras, verdadeiras ou fictícias e, com precisão, graça, dava vida até ao que talvez... não tivesse mais vida.
 

Uma vez o Vô Luiz me contou assim:

História: Saber ouvir


Era fim de tarde e o avô passeava com o neto por uma das movimentadas praças da barulhenta cidade em que viviam.

Havia o barulho de pessoas, celulares, carros, ônibus, buzinas, sirenes, construções.

- Está ouvindo as cigarras cantando?

- Não, vô.

- Chegue mais perto, elas estão ali.

- Eu nunca vi uma cigarra por aqui! Será que elas ainda existem na cidade, Vô?

O avô se abaixou próximo ao banco da praça.

- As cigarras se mimetizam, se disfarçam na folhagem e é difícil ver as danadinhas mas sei que estão por perto. Ainda moram por aqui, sim! Se formos de encontro ao som que emitem, talvez possamos ver a vibração de suas membranas, que é como cantam.

O neto se abaixou e conseguiu enfim ouvir a cigarra. Esta, com medo, parou de “cantar”. Mas os três continuaram lá, se observando, e quando a cigarra percebeu que o avô e neto não lhe representavam perigo, recomeçou a melódica. Os dois conseguiram vê-la e ouvi-la direitinho desta vez.

- Vô, como você consegue ouvir tão bem?

- Na verdade, eu não ouço mais tão bem, mas aprendi a prestar atenção ao que vale a pena ser escutado.

E naquele momento a criança e o velho ouviam muito bem a natureza da cidade.

- Veja que muitos passam e poucos escutam o som das cigarras. Agora veja o que acontece, se alguém irá ouvir este som baixíssimo...

O avô tira do bolso e deixa cair delicadamente uma moeda na calçada.

Na mesma hora, mesmo com a poluição sonora ao redor, várias pessoas olham para o chão bem na direção do dinheiro.

- Viu, não se trata de ouvir, mas de saber ouvir. Saber o que ouvir e escutar melhor.
  
Conto traduzido e recriado por Fabio Lisboa
a partir da versão de Rona Leventhal, The Cricket Story

Referências
Livro: Spinning Tales, Weaving Hope: Stories, storytelling, and activities for peace, justice and the environment, 2002, New Society Publishers, Canada, p. 201.

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História: O dia em que João Grilo não encontrou um sábio



Conto popular recontado por Fabio Lisboa

Um dia o esperto João Grilo marcou, em sua casa, um encontro com um homem dito sábio. Mas esqueceu-se de um detalhe que era, na hora marcada, estar em casa.

Chegando lá, o tal sábio bateu na porta entusiasmado em estar cara-a-cara com  João Grilo, o cabra mais astuto da região.

E...


Nada de João.

O sábio esperou, esperou, e foi ficando desapontado, mas sabia que a sabedoria deveria andar lado-a-lado com a paciência.

Bateu na porta de novo, pronto para começar o bate-papo ensinando bons modos ao espertalhão!

E...

Nada de João.

O sábio foi perdendo a paciência quando percebeu que havia batido com a porta na cara, e bateu nela uma última vez com força (não com a cara, mas com a mão)!

E...

Nada de João.

Quando perebeu que o cabra safado havia lhe deixado na mão, o sábio perdeu de vez a paciência e com ela a sabedoria. Antes de ir embora, achou no chão um pedaço de carvão e escreveu bem grande na porta de João Grilo:

IMBECIL!

Enfim, voltou para a sua casa. Só que mal fechou a porta, ouviu "toc, toc, toc"...

- Quem é?

- É João.

- Quer o quê?

- Pedir perdão.

A porta se abriu e João Grilo  disse assim:

- Ora, o senhor que me perdoe o esquecimento, viu, é que só me lembrei do nosso encontro quando vi o teu nome escrito na minha porta.

Conto popular recontado por Fabio Lisboa

Referências
Ouvi este conto da Contadora de história, Professora de contos populares e Língua encantada Andrea Sousa.

João Grilo, como Pedro Malazartes, é personagem comum da tradição oral  e dos contos populares brasileiros. Segundo a pesquisadora Evelin Guedes, ambos provém da tradição ibérica mas adaptaram-se à cultura brasileira, tornado-se ainda mais astutos e malandros por aqui, vencendo as adversidades e desafiando os mais fortes, cultos, ricos ou poderosos com criatividade, bom humor e ironia. João Grilo ficou famoso na peça teatral escrita por Ariano Suassuna em 1955, Auto da compadecida, adaptada para o cinema e mini-série de TV.

Mais informações no artigo A “Dialética da Malandragem” em Lalino Salãthiel e João Grilo: http://www.fflch.usp.br/dlcv/revistas/crioula/edicao/12/ArtigosEnsaiosEvelinGuedes.pdf

Foto: 

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Fairy Wren - Foto: Duade Paton

História da tradição zen recriada por Fabio Lisboa

A alvorada no templo chegou com alvoroço. Todos haviam madrugado e já esperavam o mestre chegar trazendo com ele derradeiras palavras de iluminação. O velho sábio iria retirar-se do templo e meditar por 10 anos nas montanhas. Então esta seria uma oportunidade rara, senão a última, de ouvir o que o ancião tinha a dizer.

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Inspirada num conto da tradição oral irlandesa
Narrativa recontada e adaptada por Fabio Lisboa

Era uma vez um rei tão bonito e bravo quanto um cavalo selvagem. Era o rei Equinus IV do reino de Apparentis, um lugar onde cada pessoa buscava esconder os defeitos para ser, ou melhor, parecer... perfeito.

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Foto: Eduardo  Hanazaki

 História da tradição oral recontada pelo artista “anônimo” Fabio Lisboa
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 Recontada por Fabio Lisboa

Um dia, o juiz da cidade adoeceu. No outro dia, foram chamar o mulá Nasrudin para substituir o juiz.

- Nasrudin, o nosso juiz está de cama e não poderá julgar hoje. Querido mestre, poderia nos ajudar?

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Recontada por Fabio Lisboa

Desde criança, Gotmai era a mais magra das crianças e por isso era chamada de Kisa Gomati (Gotami Magricela). Kisa Gotami era pobre, órfão e sofria com as humilhações, no entanto, mantinha o seu coração puro e livre de ódio.

Ela, inocentemente, sem saber, ajudou um rico e avarento mercador. E este a fez casar-se com o seu filho. Casada, Gotami achou que iria melhorar de vida mas aí é que as coisas pioraram. Apesar de não sofrer mais dificuldades financeiras, o marido a tratava como escrava e a humilhava ainda mais. Seu corpo magro até aguentava o sofrimento mas a sua alma se entristecia cada vez mais com a violência e injustiça do mundo.

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História: O tesouro enterrado


  
História da tradição oral recontada por Fabio Lisboa

Há muito tempo, afastado das abastanças da cidade, vivia um viúvo fazendeiro de avançada idade. Além de uma horta e um pomar, o homem não tinha muitas posses mas sempre tinha ricos ensinamentos a passar para as futuras gerações de sua família.

Os ensinamentos eram passados para os cinco filhos, para as esposas dos filhos, para os muitos netos e netas em forma de histórias, conselhos e experiências – estas, quase sempre em forma de brincadeiras de faz-de-conta com os netos e afazeres da fazenda com os filhos e noras.

Só que os filhos do homem do campo só queriam saber das riquezas e da rapidez da cidade. Nada de perder tempo com bobagens caipiras! Eles e suas esposas não tinham mais tempo nem de tecer histórias e brincadeiras com os próprios filhos. Não tinham paciência para ouvir os conselhos e muito menos para aprender e fazer com prazer as tarefas cotidianas da roça. Queriam se mudar dali e prosperar! A única coisa que os fazia ficar eram rumores de que em algum lugar por perto havia um tesouro que só o velho fazendeiro sabia onde estava enterrado...

Qual o momento exato em que a noite termina e o dia começa?



História da Tradição oral - Reconto: Fabio Lisboa

Esta é a pergunta que fez o sábio mestre aos seus aprendizes enquanto o dia se despedia do sol e os mistérios do mundo ganhavam os ares: - Qual o momento exato em que a noite termina e o dia começa para todos?

Os jovens pensamentos voam longe e, antes das estrelas aparecerem, as respostas apontam para várias direções:

- O dia começa quando o sol nasce...

- Sim, mas qual o momento em que a noite termina e o sol nasce para todos? – instiga o sábio.

- Impossível mestre, essa hora nunca chega pois a terra é redonda, então alguém no mundo vai sempre estar na escuridão.

- Pois eu lhes garanto que é possível.... – insiste o professor ancião.

História Nasrudin: Ao encontro da luz

Foto: Erzaveria

 - Como é a sua casa por dentro?
- Muito bonita, Nasrudin, mas não entra sol.
- E não há algum lugar próximo onde haja sol?
- Sim, no jardim bate muito sol.
- Ora, então por que é que não muda a sua casa pra lá?



Fonte: Nasrudin 99 Contos – Caravana de Livros - Pg. 14
Foto: Erzaveria - http://www.erzaveria.com

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Recontada por Fabio Lisboa

Uma bolsa perdida, caída no canto da estrada.

- “Achado não é roubado”! E este achado deve ter caído de uma rica carruagem – pensou o homem pobre que andava pela estrada. O homem, que se chamava “João”, e não levava com ele nada além do sobrenome “Ninguém da Silva”, e ia à busca de emprego na cidade, desviou em direção ao objeto cintilante e, ao se aproximar, percebeu que nunca tinha visto uma bolsa tão maravilhosa.

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História: Nasrudin e o relógio



Recontada por Fabio Lisboa

Naqueles tempos, Nasrudin começou a perder sempre a hora, seus horários se desencontravam com os de sua esposa, não só pela correria do dia-a-dia, mas por culpa do relógio de parede desregulado, que ora estava adiantado, ora atrasado.

A esposa de Nasrudin não demorou a reclamar: - Nasrudin, nossos horários não batem, esse seu relógio está sempre errado, você não vai tomar uma providência?

O dom da história


recontado por Fabio Lisboa

Baal Shem Tov, o mestre do bom nome, ensinou as pessoas de sua região a sentirem a presença de Deus.

Naquele tempo, era como se não houvesse mais tempo de sentir, de sequer sentir a presença do outro, muito menos de sentir mistérios profundos além dos sentidos, como a presença divina.

Mas Baal Shem Tov ensinou as pessoas a criar um tempo de paz para si e de união com os outros. Um tempo de sentir a força sagrada que une todos à tudo, um tempo de ver o invisível, de agradecer à Deus e de ouvir o som do infinito.

História: Dois bodes cooperativos e uma ponte estreita


por Fabio Lisboa

De um lado da ponte um cooperativo. Um bode. Com patas fortes e flexíveis o suficiente para subir montanhas, desviar de pedras e não cair de pontes sinuosas. Do outro lado da ponte, outro cooperativo. Outro bode. Com outras patas fortes e flexíveis.

Os dois queriam conhecer um novo horizonte do outro lado da ponte. Só que a ponte era estreita, escorregadia e sinuosa. Mas os dois bodes gostavam de ajudar os outros. E naquele dia os bodes acordaram com o nascer do sol e tentaram a sorte. Como o sol nasce pra todos daquele lugar na mesma hora, os dois cooperativos chegaram bem na mesma hora. Sorte a deles!