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entrelaçada à educação, literatura, brincar, educação ambiental e cultura de paz.

Tem dias que o que a gente mais precisa é de uma boa história

Foto: Cherry_fruit_loop
Servos, senhores, um amigo contador de histórias e o verdadeiro Mestre
Tem dias que o que a gente mais precisa é de algo sagrado... Mas como viver algo assim, eterno, no mundo do aqui-e-agora? Tem dias que o que a gente mais precisa é de uma massagem nos pés... Mas onde encontrar alguém (profissional não vale!) disposto a fazer isso por nós (como um ato de gentileza, de amor ou de amizade)? Tem dias que o que a gente mais precisa é contar o que se passou conosco... Mas quem estaria disposto a nos ouvir de fato?

Tem dias em que só encontramos espinhos pelo chão, portas e ouvidos fechados... e nestes dias de pés sujos e feridos é bom lembrar de histórias de pessoas que passaram por situações tão ásperas quanto as nossas e que encontraram reconforto nas palavras e ações de um grande mestre...


Era uma cidade onde as portas eram recobertas de espinhos e as pessoas eram ainda mais duras, indiferentes e hostis do que as portas. Uns tinham medo dos outros. Um império impunha as leis da vida e a cultura. Neste lugar inóspito o inimigo estava fora e dentro das casas.


Os casais estavam sempre em guerra, um tentando impor suas vontades, necessidades e crenças no outro. Os servos eram soldados sempre em guerra contra o seu próprio senhor.

Os senhores se julgavam tão superiores que se esqueciam que lidavam com seres humanos e tratavam  amigos, familiares, profissionais, enfim, todos ao seu redor, como servos.

Mas não havia servos de fato. Só havia senhores naquela cidade. Ninguém queria servir ao outro. - O que eu ganho com isso ? – todos perguntavam antes de mover uma palha. E a falha, o motivo da bagunça ou da briga, o imperialismo era sempre “do outro” que em nada cooperou...

Um dia chegou a esta cidade um guru, um grande mestre nascido na pequena cidade de Belém. Andava de sandália pelas ruas tentando ensinar os senhores a serem um pouco mais servos do Senhor. Falou às pessoas sobre o amor ao próximo. Mas para os senhores daquela cidade “o próximo” estava sempre distante. Deus também morava muito longe para ser amado e respeitado de verdade. Os moradores daquela grande cidade só conseguiam nutrir amor pelas suas posses e pelo seu próprio ego.

Depois de ouvirem as histórias do Mestre e de presenciarem milagres, alguns se despiram do ego, vestiram sandálias e caminharam com Ele a quem chamariam de Jesus Cristo, o Salvador. Muitos, tocados pelas palavras, largaram uma vida de senhor e buscaram uma vida de servir. Mas outros tantos ficaram apenas enciumados, outros incrédulos e indiferentes, outros enraivecidos e houve até quem se fez de amigo - e traiu.

Mesmo sem saber exatamente qual fora o seu crime, mataram a Jesus. Mas as histórias Dele sobreviveram até hoje. Sua vida se tornou eterna, bem como os seus ensinamentos.

O problema é que hoje até mesmo o “eterno” não dura muito, tudo agora é “pra ontem”, não temos mais tempo de ler, reler e muito menos viver os ensinamentos de Jesus. Fechamos as nossas portas ao outro e a tudo o que é Sagrado. E nas horas vagas, só deixamos entrar: entretenimento!

Até as histórias contadas oralmente, com seu caráter dual de entretenimento-ensinamento quase sumiram ou, quando muito, viraram filme épico, onde a violência é quem invariavelmente vence. É difícil ouvir uma pessoa, em paz, contando histórias à outra... É mais fácil discutir, menos doloroso se comunicar à distância e mais prático deixar outros meios contarem as histórias a todos. Dá trabalho contar me dirigindo ao outro. Este não necessariamente quer me ouvir.

- E quem ele pensa que é pra não me ouvir? – pensamos. O ego nos impede de, com humildade, chegar até o outro. O ego nos impede de dialogar e narrar com verdade para o outro.

Quando o ego tenta dominar os que se comunicam com ele não há uma troca genuína, não há histórias inesquecíveis nem paz duradoura. O mestre que impõe os seus ensinamentos não é um mestre genuíno. O contador de histórias que não ouve os seus ouvintes, não entende suas dúvidas e tenta impor a sua verdade não deixa espaço para que a verdade entre pelos corações e mentes questionadoras. O guru, o grande mestre, transforma as perguntas dos discípulos em caminhos para a verdade e faz de supostos servos, amigos. Laurence Freeman descreve o embate que travamos ao tentar nos desprender do ego e como o guru, no caso, Jesus de Nazaré, pode nos ajudar nesta empreitada:

“Por vezes até podemos ter um vislumbre embaraçoso da inveja absurda do ego com relação ao guru. Ter inveja de Jesus é o reflexo de Judas na pisque humana, o lado escuro da noite luminosa da fé.”[1]

(...)

“O ego só aprende com tanta lentidão, como uma criança difícil, que não há necessidade nenhuma de se competir com Jesus. Ele acaba por não mais se manifestar quando descobre que não existe nenhuma competição. Não se pode argumentar por muito tempo com alguém que fica em silêncio quando se espera que revide. Não se pode brigar com alguém que oferece a outra face. Não se pode empurrar alguém que se afasta para que passemos.

Toda estrutura de poder que o ego procura para se defender é suplantada pela humildade do verdadeiro Eu. (...) [Por isso, com sua sabedoria e humildade, Jesus] nos chamou de amigos.

“Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz; mas eu vos chamo de amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu vos dei a conhecer.” (João 15:15)

A amizade talvez seja a maneira mais evocadora de descrever o nosso relacionamento com Jesus.

Pilatos perguntou a Jesus se ele era rei e Jesus não negou. Mas deixou claro que era um tipo de rei diferente de qualquer outro que Pilatos tivesse em mente. Cada amigo é um rei no sentido empregado por Jesus: um governante benevolente, que protege e educa, na vida de seu amigo. A amizade se exprime em atos precisos de amor, preocupação e dedicação íntima. Jesus executou um destes atos antes da última refeição que compartilhou com seus amigos. Ele lavou-lhes os pés. Pedro, que achava que sabia quem Jesus era, horrorizou-se diante dessa oferta de trabalho servil e humilhante. Jesus insistiu. E quando terminou o ritual, perguntou se seus amigos haviam entendido o que lhes fizera. É claro que não entenderam. A história prossegue, mostrando com que frequência seus discípulos posteriores também não alcançaram esse entendimento.

“Vós me chamais de Mestre e Senhor e dizeis bem, pois eu o sou. Se portanto, eu, o Mestre e o Senhor, vos lavei os pés, também deveis lavar-vos os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais.” (João 13:12-15)”[2]
(..)

“A amizade precisa ser manifestada e desenvolve-se por meio de sinais. Seu sinal de amizade foi ter revelado a eles tudo o que ouvira do Pai. Por meio de palavras e atos.”[3]

Tem dias que o que a gente mais precisa é de um amigo. E este amigo, se for um mestre interior, se for Deus, se for o Filho de Deus, Ele nunca nos deixa. Mas quando começamos a conhecer este amigo de perto, Ele nos conclama a compartilhar suas histórias e a levar a Sua amizade a outros amigos – e desconhecidos...

Então, se você não vai lavar o pé sujo de sua amada, do seu amigo ou desconhecido, talvez uma massagem num pé lavado seja o bastante, talvez emprestar a ele ou ela um chinelo seja suficiente. Talvez andar descalço e silenciosamente ao lado destes pés do outro seja o que o outro precisa. Talvez contar uma história sobre o ritual do lava-pés seja o bastante. Talvez contar uma simples história de amizade em que você e o outro participam seja aconchegante.

Talvez a massagem de palavras aqueça e conforte a vocês mais do que a água quente. Porque tem dias que o que a gente mais precisa é de uma boa história. Uma boa e sagrada história.


Referências e leituras

Jesus, o mestre interior – Laurence Freeman - WMF Martins Fontes, 2004

Bíblia (Novo Testamento - Evangelho segundo João)


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História: Amor ao próximo  (http://www.contarhistorias.com.br/2010/12/historia-amor-ao-proximo.html)

Foto
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Histórias da Bíblia em versão para crianças:

Histórias da Bíblia para Crianças
Autor: HARRISON, JAMES
Editora: 
FTD

Bíblia para Crianças - Em 365 histórias
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Texto: 
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Tradução: Ferreira de Almeida
Organizador: Aliança próevangelização de crianças
Editora: HAGNOS

Bíblia Infantil
Autor: ZASTRAS
Editora: 
ZASTRAS

Bíblia Infantil
Autor: VARIOS AUTORES
Editora: 
EDELBRA


[1] Freeman, Laurence - Jesus, o mestre interior – WMF Martins Fontes, 2004 p. 68
[2] Freeman, Laurence - Jesus, o mestre interior – WMF Martins Fontes, 2004 p. 68-69
[3] Freeman, Laurence - Jesus, o mestre interior – WMF Martins Fontes, 2004 p. 69

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