![]() |
| Foto: Cícero Rodrigues, cenário da Editora Qualis na Bienal Internacional do Livro 2026 |
Por Fabio Lisboa
A gente bem que ajuda as histórias a saírem dos livros. Mas, na verdade verdadeira, leitores e ouvintes é que decidem se aceitam — ou não — entrar nelas.
Contadores de histórias “apenas” emprestam voz e corpo para que elas saiam pulsando dos livros e batam à porta da imaginação (e do coração) dos ouvintes.
Há quinze anos, contando histórias e dando oficinas no Simpósio Internacional de Contadores de Histórias, no Rio de Janeiro, escrevi que “o contador de histórias transforma a arte da palavra em arte do encontro”. Em 2026, com O Mistério Amarelo da Noite adotado em escolas particulares e no Programa Minha Biblioteca, na rede pública, tenho tido a oportunidade de conhecer muito mais de perto meus leitores e ouvintes: os diferentes jeitos como entram na história e no Beco Escuro, enfrentam medos e descobrem luzes na escuridão.
Na Bienal de 2026, vou me encontrar com leitores, amigos (ou ambos!) durante a tarde de autógrafos e bate-papo no estande da WMF Martins Fontes, no sábado, 12/9, às 14h. A caminho do estande, no dia da abertura do evento, achei que seria interessante deixar uma imagem falar por mim. E, quando a vi, quase deixei a legenda em branco, juro!
Mas aí me lembrei de que não sou ilustrador nem fotógrafo conceitual: sou contador de histórias, rs. Vamos ver se dá tempo de te contar uma?
Vivemos cercados por imagens prontas, com a atenção sendo chamada, puxada e disputada por todos os lados. E, em meio a lembranças de festivais, contadores e ouvintes pelo mundo, me lembrei de como o amigo Antonio Rocha consegue, com talento, precisão cênica e espaço pra interação do público, prender a atenção de crianças e adultos — inclusive a minha.
Num dia em que nós dois estávamos nas Arábias pro Sharjah Narrators Forum, ele me contou a história de como a ancestral das aranhas — e das histórias — transformou suas pequenas patas em poderosos meios de locomoção e espalhou suas peripécias de astuta fiadeira de palavras pela África e pelo mundo.
Escuta essa: Anansi estava com fome — de guloseimas e da atenção de todos. Ia passando pelos cantos da savana e, por onde passava, havia um bicho cozinhando alguma coisa. Anansi amarrava a ponta de um fio de sua teia a uma das patas e pedia ao animal que puxasse assim que o rango estivesse pronto.
Acontece que, quando o Sol bateu bem no meio do céu, a fome bateu no meio da pança e todos os pratos ficaram prontos meio que ao mesmo tempo. Pronto: daí foi um baita de um puxa-daqui-puxa-de-lá nas patas (até então, curtinhas) de Anansi que eu nem te conto! No fim das contas, seus oito olhos se arregalaram e suas oito patas foram esticadas em oito direções.
A narrativa de origem que podia terminar mal acabou explicando como Anansi e suas descendentes aracnídeas ganharam pernas compridas, finas, ágeis e destemidas. Na tradição akan, sobretudo entre os asante, de Gana, todas as histórias pertencem a Anansi. E, quando ouvintes sedentos de histórias puxam um dos seus fios, recebem muito com que tecer as próprias narrativas.
Não tem problema se cada um interpreta o conto do seu jeito e quer puxar a sardinha pro seu lado. Anansi e seus descendentes da palavra falada esticam as pernas, mas não perdem o rebolado — e nem o fio da meada.
Em certa medida, um clássico (seja antigo ou contemporâneo) nunca está realmente parado. Pode até passar algum tempo esquecido numa estante; no entanto, assim que encontra um leitor, não para mais de pulsar dentro dele.
Já quando a palavra encontra a prosódia, o olhar, o gesto, o imaginário e a presença de quem conta, o conto atravessa os limites de suas páginas. A tradição oral, ampla e imaterial, ganha forma, corpo e voz — e se mistura à história de quem narra e de quem escuta.
As palavras saltam do papel e, em vez de entrarem somente pelos olhos, entram pelos ouvidos bem abertos, pelo pulsar dos corações em uníssono e pelos olhos brilhantes da imaginação. Os personagens vão além do seu papel distante no espaço e no tempo e ficam ao alcance das mãos. Mais perto do centro de nossa própria vida.
A narrativa, então, nos convida a adentrar suas camadas e viver trocas impalpáveis, pois acontece diante — e dentro — de quem conta e de quem escuta.
Ainda assim, com toda essa presença, todas essas trocas e a vontade de compartilhar até o último fio da narrativa — enquanto o público quase sempre quer mesmo “mais uma” —, o contador não entrega tudo. Alguma semente fica guardada somente na mente (ou no coração) de quem viveu aquele encontro. Germina no escuro, brota quando chega a hora e, ao ganhar o mundo, espalha novas sementes. É um movimento circular e sem idade que, até onde sei, continuará girando enquanto houver humanidade.
Do “era uma vez” ao ponto final, o contador (aprendiz ou ancião) tampouco entrega tudo pronto. Como num teatro de sombras oral, oferece contornos e ensejos: silhuetas tecidas com palavras. Cada ouvinte completa as imagens com suas próprias cores e memórias, alegrias e dramas, perguntas e desejos.
E olha: quem aceita o convite entra de vez numa festa sem hora para acabar!
A história sai do livro e da boca de quem conta. O ouvinte entra nela.
E talvez nem a história nem o ouvinte voltem à mesma página do mesmo jeito. Mesmo quando uma história fica guardada dentro do peito por muito tempo, cedo ou tarde (normalmente, bem na hora certa), ela começa a pulsar e a correr por aí de novo. Corre tanto que o peito fica ofegante e o coração parece querer sair pela boca — e sai mesmo, em forma de história.
E, quando essa história bate a esmo (ou de propósito mesmo) à porta de outro coração, aí a coisa vira um encanto: a arte da palavra volta a ser arte do encontro — um verdadeiro diálogo entre corações.
E você, me conta, num comentário ou ao pé do ouvido: que história já te fez atravessar a página, ganhar o mundo com seus personagens favoritos e dialogar com o coração de quem a fez chegar até você?
Por Fabio Lisboa
Para esta história continuar
Na Bienal
O Mistério Amarelo da Noite — autógrafos e bate-papo com Fabio Lisboa
Sábado, 12/9, às 14h
Estande da WMF Martins Fontes
Bienal do Livro 2026 — Anhembi, São Paulo
Contação de histórias
Histórias que saem dos livros
Desenterrar baús da memória, encontrar pérolas num mar de histórias e descobrir como, em poucas páginas, pode caber o mundo todo. Na terra do “Era uma vez...”, em pouco tempo cabem todas as eras. Ao cruzar o limiar entre o imaginário e o palpável, as histórias saem dos livros — e os ouvintes entram nelas.
Formato: de 1 a 4 sessões | Duração: 1 hora por sessão.
Formação
Histórias que saem dos livros: Contar Histórias em 5 Es
O que existe por trás — e por dentro — de um conto bem contado? Como fazer as histórias saírem dos livros, da memória e da imaginação para encontrarem seus ouvintes? Esta formação revela alguns dos fios que sustentam uma boa narrativa, articulando exercícios práticos, bibliografia e os conceitos da abordagem Contar Histórias em 5 Es.
Formatos e duração: palestra — 1h30 | oficina — de 3 a 6 horas.
Para saber mais ou levar uma dessas experiências à sua escola, biblioteca ou instituição, fale comigo pelo WhatsApp: http://bit.ly/CONTARHISTORIAS
Crédito da Foto: Cícero Rodrigues, da Livraria Martins Fontes Paulista em cenário no estande da Qualis Editora.
#storytelling #ContarHistorias #OMistérioAmareloDaNoite #BienalDoLivroSP #LiteraturaInfantil #LiteraturaJuvenil #ContaçãoDeHistórias #AutorNaEscola #MinhaBiblioteca #FormaçãoDeLeitores #FabioLisboa
Storytelling, Contar Histórias, Bienal, Sharjah Narrators Forum, O Mistério Amarelo da Noite, Bienal Do Livro SP, Literatura Infantil, literatura juvenil, contação de histórias, Autor na Escola, Minha Biblioteca, Formação de Leitores, Fabio Lisboa



0 comentários:
Postar um comentário