"Os mitos não sobrevivem apenas nos livros e na voz dos contadores de histórias. Continuam escondidos, até alguém olhar e os (re)descobrir, nas brincadeiras das crianças."
Por Fabio Lisboa
— Papai, olha, tem um dino ali!
Matheus estava no balanço, mas, obviamente, depois da constatação de que havia um gigantesco animal pré-histórico por perto — mais especificamente, no parquinho do nosso prédio —, eu, ele e um amiguinho dele, um pouco mais velho, fomos ver do que se tratava.
Olhando pro alto, fiquei impressionado. Não com o dinossauro que vi, mas com a bela palmeira que dava frutos amarelos e com a imaginação do Matheus, que, aos 2 anos e meio, já dava bons frutos. No chão, debaixo da palmeira, estava um largo e comprido galho seco que havia caído. Era o dino.
Acontece que a descoberta arqueológica não era um fóssil inerte. O brincar de faz de conta estava só começando e o achado ganhou vida nas mãos do Matheus e do Igor. O “dinogalho” rugiu. Brincou de pega-pega com os dois meninos. O bicho era mais comprido que os dois juntos. E bem pesado pra crianças do jardim da infância. Mas, dali a pouco, eram eles que dominavam o animal.
O carregavam e o arremessavam o mais longe que podiam. A mãe do Igor fez uma cara de certa preocupação com o uso excessivo da força pra tal intento. Mas sabia que eu era contador de histórias e educador e deve ter pensado: ele deve saber o que está fazendo...
Bem, eu não fazia muita coisa, na verdade. Apenas os incentivava a brincar mais do que eles mesmos já estavam inventando. Claro que me senti honrado quando me incluíram no arremesso de galho (quase um tronco) de árvore, digo, de dino. Percebi que até pra mim não era leve aquele dino.
Me senti participando de um ritual. Lá estava um menino pedindo pro pai mostrar a sua força. Corri um pouco e arremessei o mais longe que pude.
As crianças gritaram:
— Oooohhhhh!
Veio à memória a imagem ritualística de povos indígenas brasileiros do Cerrado, como os Krahô, Xavante e outros povos do tronco Jê, cujos mitos, saberes e práticas, também atravessam a tradição oral e a vida comunitária. Entre essas práticas estão as corridas de tora, realizadas em diferentes contextos cerimoniais e festivos. Dependendo do povo e do ritual, elas podem estar ligadas à vida coletiva, à formação da pessoa, a passagens entre grupos de idade e até ao encerramento do luto.
Entre os Xavante, por exemplo, há uma corrida que faz parte de um complexo rito de passagem — ao mesmo tempo, de jovens em seu caminho para a vida adulta e de adultos para uma nova posição na estrutura social, com maior participação na vida coletiva da aldeia. Os adolescentes deixam por um período a casa dos pais, convivem com aqueles que assumirão o papel de danhohui’wa e, em certo momento da cerimônia, entram em cena a pesada tora de buriti.
Carregada e passada de ombro a ombro, a tora adquire ali um peso maior que seus mais de 100 quilos: no conjunto daquele ritual, corpo, comunidade, resistência, continuidade e ancestralidade também estão em movimento. Ao fim de uma de suas etapas, adolescentes e seus “padrinhos” danhohui’wa já ocupam outro lugar na vida da comunidade.
Então, ali no parquinho, aquele pedido tão simples do Matheus — “papai, joga!” — mexeu comigo. Ali havia um menino olhando para o seu amado protetor mais velho e querendo ver do que ele era capaz. E, ao me chamar para dentro da sua brincadeira, queria experimentar do que nós dois éramos capazes, juntos.
O antropólogo Xavante Fábio Ubre’a Abdzu, que viveu esse ritual primeiro como adolescente e, anos depois, como danhohui’wa, diz que, na corrida de toras, “prevalece a força”. Em outras etapas do mesmo ritual, porém, há também espaço para o brincar, o tom jocoso, a dança e os cantos.
Naquele fim de tarde, em escala infinitamente menor e dentro de outro universo cultural, também prevalecia a força de pai e filho. A força e a energia do brincar junto. Abrindo, talvez, novos caminhos no desenvolvimento do pai, do filho e da relação entre os dois.
Para o historiador e especialista em mitologia comparada, Mircea Eliade, o mito não é apenas uma história que se conta. Ele pode ser revivido e atualizado pela experiência ritual. Eliade afirma ainda que uma das funções do mito é oferecer modelos exemplares para ritos e atividades humanas significativas.
E o brincar, à sua maneira, produz espontaneamente gestos — carregar, vencer, perseguir, vestir-se, transformar-se — que também encontramos, convertidos em símbolos, em mitos e ritos de diferentes culturas.
E, quando achei que o rito, digo, a brincadeira ia acabar, até porque o sol já ia se pondo e a hora de subir pra casa se aproximava, Matheus usou de novo a imaginação pra trazer uma nova reviravolta pra nossa história.
Ele colocou o tronco-galho-dino nas costas.
Agora parecia uma capa. Mas não dessas leves e flutuantes dos super-heróis contemporâneos. Algo mais rústico, orgânico e, de novo, ao meu ver, muito simbólico.
Após a vitória no primeiro dos seus doze trabalhos, eu vi o pequeno Hércules carregando a pele do Leão de Nemeia e fazendo dela uma vestimenta. Num piscar de olhos, uma única brincadeira atravessou mundos simbólicos muito diferentes.
Matheus não tinha a referência Xavante na cabeça. Hércules, sim, já passou pelo seu caminho: ouviu trechos da história que contei, sabe que ele é forte e brinca com o personagem num jogo de cartas. Mas em nenhum momento me disse que era Hércules ou que vestia uma pele de leão ou de dino.
Mas eu vi.
Porque as referências estão nos símbolos, nos arquétipos, nas jornadas de heróis. Grandes e pequenos. E nas de heroínas, mas essa já é outra história e pode ser contada em outro momento. Por ora, enquanto voltávamos para casa, pensei que a tarefa e a alegria de um pai não são só contar boas histórias. É reconhecer quando uma delas acaba de nascer e entrar nela para brincar com o filho.
Tudo pode começar com um simples objeto como um tronco seco. Depois atravessar o Cerrado, a Grécia, o aqui-agora, a pré-história, o tempo mítico e o quintal de casa.
Brincar é mitológico.
Não porque as crianças necessariamente conheçam todos os mitos.
E, sim, porque continuam inventando, todos os dias, a seu modo, gestos que poderiam muito bem dar corpo aos mitos. Personificam histórias. Vivem ritos. E tudo isso antes da hora do banho!
No final, ainda deu tempo de as crianças se darem conta de que os coquinhos caídos, na verdade, eram ovos do dinossauro. A história continua.
Os mitos não sobrevivem apenas nos livros e na voz dos contadores de histórias. Continuam escondidos, até alguém olhar e os (re)descobrir, nas brincadeiras das crianças. Nelas, um tronco caído não é apenas um pedaço perdido da árvore. Ainda faz parte de um ecossistema imaginativo, real e bem vivo.
Lá pode ser dinossauro, pode botar ovos, pode ser desafio de força, rito de passagem, pode vestir — ou se vestir de — herói ou heroína. Por isso, brincar é mitológico.
E a isso talvez possamos chamar de despertar o imaginário: a capacidade de enxergar, num pedaço de madeira, um brinquedo; no brinquedo, um personagem; e, no cerne disso tudo, histórias que a humanidade ainda guarda dentro de si.
Por Fabio Lisboa
09-08-2026
Referências
ABDZU, Fábio Ubre’a. “Podem quebrar o maracá, mas não vão quebrar nossa tradição”: Datsi’madzébré, ritual Xavante de iniciação dos danhohui’wa e dos wapté. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Goiás, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Goiânia, 2020.
ELIADE, Mircea. Myth and Reality. New York: Harper & Row, 1963.
LISBOA, Fabio. O imaginário transformador em sala de aula. Artigo e oficina, 2009.
Crédito da imagem de abertura: criação com auxílio de IA (ChatGPT), a partir de concepção e direção de Fabio Lisboa, 2026.


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