Aqui você encontra a arte de contar histórias (storytelling)
entrelaçada à educação, literatura, brincar, educação ambiental e cultura de paz.

História: A faca do rei



Conto da tradição oral recontado por  Fabio Lisboa

No tempo em que caçadores usavam facas para caçar e reis usavam facas para colecionar, houve uma grande festa reunindo diversas vilas do reinado. O caçador do vilarejo mais distante também foi à festa.

Os convidados deste local periférico levaram dois dias para chegar e graças ao caçador puderam se alimentar de carne fresca durante a viagem. Ele era um homem quieto, saía cedo para caçar e voltava tarde, quase sempre trazendo algo de bom que dividia com todos, obviamente ficando com uma generosa parte da caça para ele mesmo. E os conterrâneos do caçador o queriam bem por ele ser assim.

Durante as festividades houve um farto banquete e todos cantaram e dançaram – com exceção do caçador da vila distante que preferiu ficar apreciando a coleção de facas do rei. O homem gostou muito de uma das facas - justo a preferida do rei - que era muito afiada e toda ornamentada, com o cabo esculpido em madeira e cravejado de garras e dentes de predadores selvagens. Acontece que quando todos foram embora da festa a faca preferida do rei sumiu.

Dois dias depois, quando as pessoas chegaram de volta às suas moradas, junto com elas, chegou a notícia do sumiço da faca do rei.

E naquela pequena vila logo pensaram: Quem precisa de uma faca? Ora, o caçador! Bem, havia muitos caçadores junto à realeza, não devemos culpar o nosso caçador!

Mas na grande vila, junto ao rei, logo pensaram que os caçadores do rei tinham muitas facas e eram amigos de todos. Lembraram que aquele caçador vindo da periferia só tinha uma faca e não havia falado com ninguém. Era um homem muito estranho:

- Ficou olhando muito as facas do rei. Só pode ser ele o culpado!

Sem demora, a notícia da culpa do caçador chegou ao seu vilarejo e assim, lá, todos começaram a suspeitar dele também. Repararam em certas atitudes suspeitas:

- O caçador sai cedo, fica vagabundeando na floresta e volta tarde...
- Ele nunca fala com ninguém! Nunca é honesto na divisão da caça, deve ser culpado!
- Por culpa deste ladrão miserável estamos sempre com medo e a nossa vila nunca está em paz!

O povo do vilarejo iria denunciar e entregar logo o culpado ao rei! Mas antes disso, a faca do rei foi encontrada.

E assim que a notícia chegou , todos repararam em certas atitudes nobres:

- O caçador levanta cedo e volta tarde, vejam que trabalhador!
- É um homem sério e não fica falando bobagens por aí, aliás, nunca o ouvi falar mal de ninguém...
- Nós sabíamos o tempo todo que a faca do rei apareceria! É muito fácil perder as coisas. O nosso caçador nunca faria mal a ninguém, divide com honestidade a sua caça e graças a ele temos sossego na vila!


E é por isso que até hoje se diz: “Quando a faca do rei está perdida, o caçador é um criminoso; quando a faca do rei é encontrada, o caçador é um grande homem.”.

Conto da tradição oral africana. Reconto: Fabio Lisboa
(inspirado na versão de Inno Sorsy)

Referência:
MATOS, Gislayne Avelar; SORSY, Inno - O ofício do contador de histórias – WMF Martins Fontes – (A faca do rei – reconto de Inno Sorsy,  p. 47).

Foto:

Edição de imagem:
Fabio Lisboa

Post Relacionado:

2 comentários:

Carla Betta disse...

Linda história! Amei! Bem recontada!

Vanzinha.artes disse...

GOSTEI,MUITO LEGAL

Postar um comentário