Aqui você encontra a arte de contar histórias (storytelling)
entrelaçada à educação, literatura, brincar, educação ambiental e cultura de paz.

Mãos procuram mãos

Meu sangue está nas suas mãos. Eu não mato vocês. Vocês me mataram. Vocês me mataram quando eu tinha 5 meses antes de nascer. Quando eu chorava sem lágrimas, vida indesejada. Quando eu tinha um ano e só sabia chorar. Quando eu tinha 5 anos aprendi a chorar bem alto. Quando eu tinha 15 anos aprendi a chorar quieto, enquanto por dentro, vivia em prantos.

Você me matou desde o dia em que, da única vez que falei e perguntei seu nome, você riu de mim. Vocês, meninas, me mataram quando riram de mim porque eu era quem eu era. Mas quem eu era? Não sei.

Eu achava que você riam de mim porque eu vim de onde eu vim... Mas de onde eu vim? Não sei... talvez de uma mãe que não me quis... Eu vim de um lugar que não me queria dentro do seu corpo. Nenhuma mulher me quis dentro do seu corpo, quando dentro do coração bastava.

Quando encontrei uma mãe que me queria eu não sabia como querer, eu não sabia como amar. Para os meus irmãos era tão fácil amar. Tão fácil me acharem estranho. Em qualquer lugar era fácil me acharem estranho, principalmente na escola.

Por que não inventaram uma escola de amar?

Talvez eu só precisasse aprender a amar. Aprender a dividir o pouco que eu tinha. Aprender a falar. Talvez eu só precisasse de alguém que precisasse de uma mão. A minha mão. Mas não. Minha mente estava suja de sangue antes da minha mão.

Que pena eu ter ignorado os que cruzaram o meu caminho também com a mente suja de sangue... Talvez eu pudesse ajudar alguém sujo e sozinho como eu... Talvez eu pudesse ajudar se tivesse coragem para encontrar alguém que precisasse de ajuda. Mas não.

Preferi ser covarde, me esconder em mim e matar pessoas inocentes e indefesas. Só agora entendo que vocês não me mataram. Eu me matei só. Inventei sozinho uma tragédia.

Quem sabe os que me odeiam evitam a próxima tragédia, em vez de perder tempo amaldiçoando a sociedade de morte, amando os que estão vivos. Eu escolhi morrer. Da próxima vez, escolho morrer sozinho, como vivi...

Perdão aos filhos dos quais tirei a vida antes do tempo. Perdão aos pais os quais matei em vida. E se não conseguirem me perdoar, entendo, porque nem eu me perdoo. Deus, quem sabe...

Tristemente, só agora vejo que talvez minhas mãos sujas de sangue só precisassem sair, antes de se sujar, sair, e ir (sem desistir) até encontrar outras mãos... e de mãos dadas... ir... irmãos.


Que as vitimas da escola Tasso da Silveira (Rio de Janeiro) descansem em paz e as famílias das vítimas encontrem consolo ao se darem as mãos.

Que pais, professores e alunos troquem as palavras desrespeito, intimidação e competição por respeito, afeto e cooperação.

Que a cultura de guerra dê lugar a uma cultura de paz.

2 comentários:

Cláudia Cristina disse...

Olá Fabio!
Que maravilha seu blog!
Parabéns! Sucesso sempre!
beijo! Um abraço fraterno!

Maria disse...

Com certeza, ele foi vítima do descaso, do desrespeito, do abandono. Ninguém olhou para ele, ninguém teve tempo de olhar para ele. Todos estavam tão ocupados olhando para si mesmos, que não puderam perceber o outro que gritava por amor.
Todos nós morremos um pouquinho, ao acompanhar este triste episódio.
Por amor, páre e olhe para os lados. Verá que há pessoas que precisam ser pelo menos ouvidas, precisam que alguém olhe para elas. Simples.
Ame o próximo.

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