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Direitos do leitor – Daniel Pennac


Por Daniel Pennac
Edição: Fabio Lisboa [1]

O verbo ler não suporta o imperativo. Aversão que partilha com alguns outros: o verbo “amar”... o verbo “sonhar”... bem, é sempre possível tentar, é claro. Vamos lá: “Me ame!” “Sonhe!” “Leia!” “Leia logo, que diabo, eu estou mandando você ler!”

- Vá para o seu quarto e leia!
Resultado?
Nulo.[2]

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Sejamos justos. Nós não havíamos pensado, logo no começo, em impor a ele a leitura como dever. Havíamos pensado, a princípio, apenas no seu prazer. Os primeiros anos dele nos haviam deixado em estado de graça. O deslumbramento absoluto diante dessa vida nova nos deu uma espécie de inspiração. Para ele, nos transformamos em contador de histórias. Desde o seu desabrochar para a linguagem, nós lhe contamos histórias. E essa era uma aptidão em que nos desconhecíamos. O prazer dele nos inspirava. A felicidade dele nos dava fôlego. Para ele, multiplicávamos os personagens, encadeávamos os episódios, refinávamos as armadilhas... Como o velho Tolkien para seus netos, inventamos para ele um mundo. Na fronteira entre o dia e a noite, nos transformávamos em romancista, só dele.[3]
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Onde encontrar o tempo para ler?

Grave problema.
E não é um só.

A partir do momento em que se coloca o problema do tempo para ler, é porque a vontade não está lá. Porque, se pensarmos bem, ninguém jamais tem tempo para ler. Nem pequenos, nem adolescentes, nem grandes. A vida é um entrave permanente à leitura.

- Ler? Queira muito, mas o trabalho, as crianças, a casa, não tenho mais tempo...

- Invejo você que tem tempo para ler! E porque é que essa aqui que trabalha, faz compras, cria filhos, dirige seu carro, ama três homens, vai ao dentista, muda na semana que vem, encontra tempo para ler, e este casto celibatário que vive de rendas não?

O tempo para ler é sempre um tempo roubado. (Tanto como o tempo para escrever, aliás, ou o tempo para amar).

Roubado à quê?

Digamos, à obrigação de viver.
(...)
___________________________

O tempo para ler, assim como tempo para amar, dilata o tempo para viver.

Se tivéssemos que olhar o amor do ponto de vista de nosso tempo disponível, quem se arriscaria? Quem é que tem tempo para se enamorar? E, no entanto, alguém já viu um enamorado que não tenha tempo para amar?

A questão não é de saber se tenho tempo pra ler ou não (tempo que aliás, ninguém me dará), mas se me ofereço ou não à felicidade de ser leitor.
___________________________

Mas ler em voz alta não é suficiente, é preciso contar também, oferecer nossos tesouros, desembrulhá-los na praia ignorante. Escutem, escute, e vejam como é bom ouvir uma história.

(...)

Caras bibliotecárias, guardiãs do templo, é uma felicidade que todos os títulos do mundo tenham encontrado seus estojos na perfeita organização de vossas memórias (como iria encontra-los sem vós, eu, cuja memória parece mais um terreno baldio?), é prodigiosos que estejais em dia com todas as temáticas ordenadas nas estantes que vos circundam... mas como seria bom também vos escutar contar vossos romances preferidos aso visitantes perdidos na floresta de leituras possíveis ... como seria lindo se lhes rendêsseis a homenagem de vossas melhores lembranças de leitura! Contadoras, sejam mágicas e os livros saltarão de suas prateleiras nas mãos do leitor.[4]
___________________________

Fico, arbitrariamente, com o número 10, primeiro porque faz conta redonda, depois porque é o número sagrado dos famosos Mandamentos e é agradável vê-los, por uma vez que seja, servir a uma lista de autorizações.

Porque se quisermos que um filho, filha, que os jovens leiam é urgente lhes conceder os direitos que proporcionamos a nós mesmos.

Direitos imprescritíveis do leitor:

1. O direito de não ler.
2. O direito de pular as páginas.
3. O direito de não terminar de ler o livro.
4. O direito de reler.
5. O direito de ler no importa o quê.
6. O direito ao “bovarismo” (doença textualmente transmissível).
7. O direito de ler não importa onde.
8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali.
9. O direito de ler em voz alta.
10. O direito de se calar.

Daniel Pennac[5]

Referência
Pennac, Daniel - Como um romance – tradução de Leny Werneck- Rio de Janeiro: Rocco, 1993

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[1] Trechos editados por Fabio Lisboa do livro “Como um romance” de Por Daniel Pennac – tradução de Leny Werneck- Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
[2] Pennac, Daniel - Como um romance – tradução de Leny Werneck- Rio de Janeiro: Rocco, 1993, p. 13.
[3] Pennac, Daniel - Como um romance – tradução de Leny Werneck- Rio de Janeiro: Rocco, 1993, p. 17.
[4] Pennac, Daniel - Como um romance – tradução de Leny Werneck- Rio de Janeiro: Rocco, 1993, p. 124-125.
[5] Pennac, Daniel - Como um romance – tradução de Leny Werneck- Rio de Janeiro: Rocco, 1993, p. 139.

1 comentários:

Bibbi Bokkem disse...

Eu adoro esses direitos do leitor, vi eles em uma aula e não poderia concordar mais com algo !!!

http://bibbibokkens.blogspot.com.br/

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