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Neurociência e contar historias: O poder da comunicação 1 (parte 1 de 2)


Modelo de emparelhamento neural do estudo da Universidade de Princeton (em inglês) “Emparelhamento neural falante-ouvinte baseia comunicação efetiva”.
Um relato científico-experimental sobre a conexão entre as pessoas ao compartilhar histórias


Imagine o poder de uma pessoa projetando suas imagens mentais em outra. Imagine o poder de alguém adivinhando os pensamentos do outro antes deles acontecerem. Registrar a manifestação deste poder poderia parecer um experimento paranormal mas trata-se de um experimento científico da Princeton University feito por uma equipe de cientistas liderados pelo Professor Dr. Uri Hasson em 2010.

Este poder de conexão não é um privilégio dos estudiosos (e cérebros estudados) em Princeton e sim está presente no dia-a-dia de todos os que se propõe a falar dirigindo-se ao outro e a ouvir este outro.


Uma aluna do Dr. Hasson narra fatos a outra participante voluntária e quanto mais esta participante entende as palavras e o sentido da narração, mais os cérebros das duas se espelham. Depois outra aluna conta histórias para outros participantes que a escutam ao mesmo tempo, só que dessa vez em russo e logo, sem entender a língua, a atividade cerebral falante-ouvintes fica cada vez mais dissociada.

Este estudo realizado em 2010 se tornou pioneiro ao resolver alguns problemas (como o alto ruído) quanto ao uso da tecnologia de ressonância magnética “fMRI (functional magnetic resonance imaging)”. O funcionamento é o seguinte: o aparelho escaneia o fluxo de sangue bombeado para ou drenado de diferentes partes do cérebro, que precisam de mais sangue e oxigênio conforme pensamos ou sentimos coisas relacionadas àquela área de nosso órgão. Estas áreas mais utilizadas literalmente acendem na tela de computador.

Por exemplo, se você pensar quanto tempo vai demorar a ler este artigo levando em consideração o tempo que levou até agora e que já leu 1/3,4, estará ativando com mais intensidade o lado esquerdo do seu cérebro.

Se pensar que gostaria que esta leitura lhe abrisse novos horizontes como quando você viu o pôr do sol ao lado de uma pessoa amada, estará fazendo brilhar com mais intensidade o lado direito do seu cérebro.

Mas isto é uma simplificação bem grosseira e o entendimento humano sobre o funcionamento do cérebro ainda resultará em muitas novas variantes.

Por exemplo, a partir da interpretação dos fatos (e estímulos que continua recebendo conforme o desenrolar do texto) abrem-se novas possibilidades: Explico, se você está achando este papo muito técnico (ou muito básico, no fim, dá no mesmo) escrito num palavrório (pseudo-literário-) científico e isto está quase virando um blábláblá sem valia, você estava acendendo mais o lado esquerdo (relacionado à linguagem, matemática, tempo...) e no fim desta frase estará quase apagando (literalmente desligando) o seu órgão pensante e dormindo, zzzzz.... :O)

Mas se você riu, acordou, e até se emocionou com a imagem do cérebro abaixo e correlacionou a imagem às regiões que estariam supostamente acendendo em sua cabeça (talvez mesmo sem tocá-la, imaginou a sua mão tocando-a), neste caso, você “pensou com a emoção”, usou o seu lado direito (relacionado ao pensamento espacial, artes, emoção...).

Imagem de sobreposição de emparelhamento neural do Estudo da Universidade de Princeton (em inglês): “Emparelhamento neural falante-ouvinte baseia comunicação efetiva
O interessante é que provavelmente o seu cérebro vai além e, acostumado à leitura e à contar histórias, ligado nos últimos avanços da ciência da palavra e da arte, ele cria incríveis pontes entre os seus hemisférios direito e esquerdo e entre você e os seus ouvintes!

Agora mesmo você está usando razão e emoção criando novas conexões cerebrais. Mais ainda se estiver lendo em voz alta para um grupo de pessoas! Direita-esquerda, direita- esquerda! Você lê e põe a sua mente em movimento! É como se você fosse junto com o narrador, praticamente prevendo os seus passos, direita... (e a próxima informação chega antes em seu cérebro do que na forma de palavra falada ou escrita)... esquerda!

Neste momento o seu cérebro está todo aceso, em movimento, associando a “vivência” deste texto com suas experiências anteriores, talvez até ativando neurotransmissores relacionados ao prazer, criando novas ligações (até então inexistentes) entre neurônios, a leitura (até mesmo de um texto “experimental” como este) lhe permite criar e, enquanto lê, você cria o mundo que lê (e outros mundos), enquanto lê está tendo insights e imaginando como utilizar estes conhecimentos em sua próxima palestra, aula, contação de histórias, encontro num bar, enfim, em sua vida.
Puxa, que trabalho para as análises dos neurocientistas! Que poderoso! E o melhor, que equipamento pensante prazeroso nós possuímos!

Mas se o nosso esforço (ou facilidade) em entender este texto resultou no prazer de criar partindo de pontos em comum, o oposto, a falta de entendimento, nem sempre proporciona o êxtase da criação. E os pensamentos não partem e nem chegam a pontos em comum.

Por isso o contador de histórias (e todos os que trabalham com a comunicação oral ou escrita) deve(m) saber (ou descobrir, ou intuir) qual o conhecimento prévio de seu público a respeito do que vai ser contado (tema, história, vocabulário etc.) e até mesmo técnicas de narração (predominância da leitura ou oralidade, da palavra oral apenas ou acompanhada de imagens/fantoches, poesia ou prosa, gestos exagerados ou comedidos etc) que vai utilizar. É da escolha da técnica que mais exalta o conteúdo da narrativa e deste conhecimento a respeito dos ouvintes que depende o entendimento das palavras e o consequente espelhamento de pensamentos e sentimentos. Senão é como se o narrador não falasse a nossa língua.

Na próxima postagem (parte 2) veremos o que ocorre nos cérebros quando os participantes escutam uma língua estrangeira que não entendem e a comprovação científica do poder da palavra dos contadores de histórias.

Referências:

Pesquisa original:
Stephens GJ, Silbert LJ, Hasson U. Speaker-listener neural coupling underlies successful communication. Proc Natl Acad Sci U S A. 2010 Aug 10;107(32):14425-30. http://www.pnas.org/content/early/2010/07/13/1008662107.full.pdf

Artigo (em inglês) Scientific American:
By R. Douglas Fields | July 27, 2010 | Scientific American

Artigo (em inglês) Psychology Today:
Why Sharing Stories Brings People Together - Our brains sync up when we tell stories by Joshua Gowin, Ph.D. | June 6, 2011| You, Illuminated – Psychology Today

Tabela sobre os Hemisférios Direito e Esquerdo do Cérebro

Imagens
Modelo de emparelhamento neural do estudo da Universidade de Princeton (em inglês) “Emparelhamento neural falante-ouvinte baseia comunicação efetiva”.
 
Sobreposição do emparelhamento neural  - Neural Coupling overlap by Uri Hasson study: http://www.pnas.org/content/early/2010/07/13/1008662107.full.pdf

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Por que ler?

 

4 comentários:

ruthtoledoaltschuler disse...

Maravilhoso trabalho, texto, narrativa.
Obrigada por nos ajudar a entender científicamente o que vivenciamos.
Parabéns!!

Ruth

Anônimo disse...

Adorei o texto também, elucidador e criativo, nos envolve na leitura. Parabéns e obrigado!

Vinicius

Fabio Lisboa disse...

Muito obrigado pelo incentivo, Ruth e Vinícius, aproveitando, está no ar, um post com um "Teste de atenção" curioso e uma curta reflexão comparando o contar histórias com o mesmo, espero que gostem, abs, Fabio

http://www.contarhistorias.com.br/2013/08/teste-sua-atencao-ao-contar-historias.html

Leila Garcia disse...

ADOREI!

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