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Conto de fadas real: Príncipe William e Kate Middleton e as histórias de encantamento




Por que dois bilhões de pessoas assistiram ao casamento do príncipe William e Kate (ops, sorry), digo, Princesa Catherine? Será que o mundo atual carece de beleza, sonhos de príncipes realizados, valores cavaleirescos (e cavalheirescos), amor verdadeiro, realeza e histórias de encantamento?

Será que todos nós queremos assistir a um conto de fadas se tornando real? Será que todos queremos saber o que acontece de fato depois do “casaram-se e viveram felizes para sempre”. Em “O fantástico mistério da Feiurinha”, Pedro Bandeira pergunta:

Mas o que significa “viver feliz para sempre”?  Significa casar, ter filhos, engordar e reunir a família no domingo para comer macarronada? Quer dizer que a felicidade é não viver mais nenhuma aventura? Nada mais de anõezinhos, maçãs envenenadas e sapatinhos de cristal? Como é que alguém pode viver feliz sem aventuras?

“Ah, não pode ser! Não é possível que heróis e heroínas tão sensacionais tenham passado o resto de sua vida assistindo o tempo passar feito novela de televisão. É preciso saber o que acontece depois do fim.”

A história do mais novo casal real da Inglaterra está no começo e depois do final feliz a que assistimos certamente ainda viveremos com eles muitas aventuras. O que não falta no mundo são desafios para que reis, príncipes, cavaleiros, súditos e estrangeiros melhorem o mundo. O cavaleiro (Sir) Paul McCartney incentiva o Movimento Monday Free Meat  (Segunda-feira sem Carne) que visa diminuir os maltratos com os animais e o impacto ambiental usando o garfo e faca e a vontade pessoal de cada um como arma.

Desafios gigantescos como a sustentabilidade e a paz mundial à parte, o maior desafio dos príncipes juntados (primeiramente, morando juntos por vontade própria e não politicamente arranjados) e agora matrimonialmente juntos será manter inquebrável a força que os uniu.

Será que a força de uma união de amor vence a força do tempo, da distância e até mesmo da desavença? O belo casal resistirá à tentação do belo quando seus corpos não forem mais tão belos? Seu amor estará acima da política, das intrigas, dos paparazzi, da velhice, da guerra? Na obra de William, não o príncipe mas o escritor inglês, W. Shakespeare, as famílias inimigas Capuleto e Montechio só encontram a paz após os seus filhos, Romeu e Julieta (claro), morrerem por amor.

Numa das histórias do mais lendário dos reis de origem Bretã, Rei Arthur, a beleza efêmera assume a forma de uma bela, impiedosa e mortífera bruxa: Morgana. Ela usa sua beleza para conquistar o amor do Mago Merlin (que se encanta com a beleza mas não consegue ver quem realmente está lidando e quando o vê não consegue mais resistir), a  maga o trai deixando-o eternamente preso, ficando com o que buscava na relação: poder.
  
No entanto, o imenso poder que ela conquista só lhe dá mais preocupações e pedidos de necessitados que ela não consegue atender. A poderosa bruxa também não consegue encontrar um amor à sua altura, só encontra bajuladores ou é desprezada.

A feiticeira só se redime ao encontrar Ettarde, rainha que despreza o amor de seu marido, Pelleas, deixando o rei doente. Morgana, como que tentando corrigir o desprezo que nutriu por Merlin e que também sentiu na pele ao ser desprezada, castiga Ettarde. Com seus poderes, a bruxa enfeitiça rei e rainha, fazendo Ettarde cair louca de amor pelo rei ao mesmo tempo em que faz o rei Pelleas sentir nojo e repulsa pela rainha Ettarde.

O rei Pelleas expulsa Ettarde mas se desespera achando que nunca mais iria encontrar alguém para amar. Morgana, num raro momento de compaixão, promete que o Pelleas não ficaria sozinho nunca, ela irá com ele até os confins do mundo até que encontre o seu novo amor. O que ela não imagina é que o amor entre ela e o rei nasceria, não apenas baseado na beleza, mas deste primeiro ato de compaixão espontâneo e da amizade duradoura entre os dois.

Nesta lenda, nasce um amor além da beleza efêmera, um amor incondicional, duradouro, que supera as fraquezas iniciais. Um amor que, no que vale a pena ser passado de geração em geração, na essência do contado, foi de fato “feliz para sempre”.

Ao ouvir este conto, seja lido, cantado por menestréis medievais ou narrado por contadores de histórias atuais, também nos redimimos um pouco de nossas avarezas e entramos em contato com a nossa compaixão.


Acho que o poder de nos identificarmos com os personagens e forças de um conto de fada e o tema essencial, o amor, tornam realmente encantado o casamento Real. E se pensarmos bem, como disse o bispo de Londres, Richard Chartres, em seu profundo sermão: “Em certo sentido, todo o casamento é um casamento real - com a noiva e o noivo como rei e rainha da criação, criando uma nova vida, juntos (...).”

Acompanhando as palavras de Kate e William todos dissemos “sim” para as histórias de encantamento, para o amor, para a entrega e doação um ao outro. A nossa esperança (de súditos e não súditos) é que todos os “casais reais” não apenas sobrevivam às provações da vida a dois, da sociedade e do planeta, mas vivam com paixão o seu cotidiano e vivam (e reavivem) a compaixão do mundo.



Referências

A transformação de Morgana in GREENE, Liz, SHARMAN-BURKE, Juliet - Uma viagem através do mitos: o significado dos mitos como um guia para a vida – trad: Vera Ribeiro (ilustrações, Clarissa da Costa Medeiros), Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2001.

Transcrição (Global News) e Vídeo do Sermão do Bispo de Londres, Richard Chartres (em inglês)

 

Video: Bishop of London sermon to Kate and Prince William


Fotos:
Murray Sanders, AFP e sem identificação

2 comentários:

Thiago Freires disse...

Definitivamente existe um quê de encantamento em cada um de nós. Pessoalmente, sempre admirei a literatura e seus contos de fadas, mas na vida real tendi a tornar a realeza de verdade tão ordinária que qualquer encanto fora quebrado. Desfez-se. Ontem, num pequeno acaso (Dublin inteira sabia que a rainha da Grã-bretanha aqui estava) tive meu caminho bloqueado pela realeza e tive de esperar um tempinho para chegar a outra margem do rio Liffey. Era a rainha que cruzaria a rua antes que eu pudesse atravessá-la. E numa fraçao de segundos a vi passar sorridente, acenando carinhosamente aos plebeus, a mim. O que havia de ordinário passou e, por alguns segundos, coloquei a mim mesmo num conto de fadas. Sim, mesmo a verdadeira realeza, aquela de carne e osso, meche com nossas sensações. Prova de quão tênue é a linha que separa o imaginário da vida real. Numa fração de segundos a verdadeira realeza mergulhou-me no mais profundo de meu subconsciente ... a imaginação ... e segue a literatura, digo, a vida ... :)

Anônimo disse...

ela Esteva Linda
stefani

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