Aqui você encontra a arte de contar histórias (storytelling)
entrelaçada à educação, literatura, brincar, educação ambiental e cultura de paz.

Histórias imateriais materializam a cultura humana


Se a cultura de um povo vive e se recicla na imaterialidade das histórias contadas e recontadas, numa sociedade do consumo - onde o que conta é o material e o rapidamente consumível - também as palavras tornam-se descartáveis e só queremos ouvir (ou ler) algo se aquilo for extremamente útil, rápido e palpável. Palpável o suficiente para que, depois de lido ou ouvido, seja devidamente amassado e jogado fora da memória.



Pra que desperdiçar nossa memória interna se as coisas importantes estão armazenadas nos meios externos: computadores, livros, revistas, jornais, agendas, portais, blogs, pendrives. Pra que desperdiçar nosso tempo interno ouvindo uma história e logo esquecendo-a se podemos comprá-la (ou pirateá-la) e tê-la para sempre num meio externo, pegando-a quando quisermos?

Pelo simples detalhe que as boas histórias não são facilmente compráveis, nem pirateáveis, nem pegáveis. Para que uma história se torne boa para o ouvinte ou leitor, é preciso que este, antes, entre no tempo interno proposto pela história.

Então não importa ter o livro ou o pdf (portable document format – formato de documento portátil) se não tivermos tempo e nem soubermos como entrar neste tempo imaterial de uma boa história. Não adianta ter o “arquivo” se não soubermos mergulhar nas profundezas da memória ou das sub-pastas para achar o conto e nem tão pouco soubermos a hora certa de trazê-lo à tona, entrar no seu tempo interno e contá-lo.

Adentrar uma boa narrativa é como entrar no mar, que a princípio pode não parecer muito prático ou útil... a areia entrando por dentro dos maios e grudando no corpo, o sal, a água fria, afinal, seria mais fácil entrar na piscina (ou ver um filme, rs) mas quando se está lá, é possível entrar em contato com o nosso eu mais profundo e o choque do eu com as ondas do mundo torna-se um contato prazeroso e inesquecível. A saída de volta ao mundo exterior às vezes também é difícil (os surfistas que o digam).

Além da dificuldade em sair, é muito complexo descrever uma experiência pós-banho de mar (imagine se você seria levado a sério ao tentar narrar, enquanto seus amigos querem tomar sol e água de coco, a “experiência profunda” de seu ser “mergulhando no mar infinito”)... Ou seja, transformar experiência em palavras não é fácil... Encontrar ouvidos abertos a experiências, nos dias de hoje, também não.

Já ao entrar e sair do mundo das narrativas, palavras em forma de experiência borbulham em nossas mentes.

Talvez por isso, ao sair deste tal tempo fantástico, desta introspecção interna, quem entra em contato com um conto bem contado fica com vontade de repartir as aventuras, sentimentos e aprendizados daquela narrativa com alguém. E com a narrativa em mente, parece ser mais fácil encontrar outro alguém de ouvidos atentos.

E assim, com atenciosos ouvidos, compartilhando contos, mais e mais pessoas vão ter a chance de conhecer novos tempos, novos mares, ou ainda viver uma nova experiência num mar ancestral (que esteve lá todo o tempo esperando para um “conhecimento mútuo aprofundado”). Numa boa narrativa, é possível conhecer outras culturas e ao mesmo tempo encontrar a si mesmo.

Quem sabe procurar bem - seja numa biblioteca, na internet, numa refeição com os pais ou avós, no aconchego de um colo, numa sala de aula ou de leitura, numa conversa com um amigo, ao ajudar um desconhecido ou num mergulho no mar- percebe que não é preciso ticket de entrada para ler, ouvir e participar das histórias do mundo. As boas histórias estão por aí, resta que encontrem olhos que saibam ler o imaterial e ouvidos que materializem dentro de si a cultura humana.

http://www.contarhistorias.com.br/


Fotos:
Nascer e fim do dia em Colva Beach – Southgoa - India
Esta e outros poéticos pores-do-sol em: http://blog.mobissimo.in/uploads/5_morningview_from_colvabeach_southgoa_india.jpg

Recomendação de leitura:
Mar de Histórias: Antologia do Conto Mundial – Aurélio Buarque de Holanda e Paulo Ronai (Coleção em dez volumes de um projeto que começou em 1946, demorou 44 anos para ser finalizado, já passou na mão de várias editoras, esteve esgotado e acredito que a Cosac Naify comprou os direitos para as novas edições, quem tiver mais informações, por favor, mande)...

Sobre a antologia:
A expressão que dá nome à coleção vem de uma antiga coletânea da Índia, do século XI; é a tradução do nome sânscrito Kathâsaritsâgara, que significa 'mar formado pelos rios de histórias'. Um verdadeiro oceano de narrativas, muitas delas célebres, outras traduzidas pela primeira vez para a língua portuguesa, de tal modo que a obra em seu conjunto é a mais completa panorâmica do conto universal.

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