Aqui você encontra a arte de contar histórias (storytelling)
entrelaçada à empatia, mediação de leitura, educação, brincar, sustentabilidade e cultura de paz.

História: Saber ouvir


Era fim de tarde e o avô passeava com o neto por uma das movimentadas praças da barulhenta cidade em que viviam.

Havia o barulho de pessoas, celulares, carros, ônibus, buzinas, sirenes, construções.

- Está ouvindo as cigarras cantando?

- Não, vô.

- Chegue mais perto, elas estão ali.

- Eu nunca vi uma cigarra por aqui! Será que elas ainda existem na cidade, Vô?

O avô se abaixou próximo ao banco da praça.

- As cigarras se mimetizam, se disfarçam na folhagem e é difícil ver as danadinhas mas sei que estão por perto. Ainda moram por aqui, sim! Se formos de encontro ao som que emitem, talvez possamos ver a vibração de suas membranas, que é como cantam.

O neto se abaixou e conseguiu enfim ouvir a cigarra. Esta, com medo, parou de “cantar”. Mas os três continuaram lá, se observando, e quando a cigarra percebeu que o avô e neto não lhe representavam perigo, recomeçou a melódica. Os dois conseguiram vê-la e ouvi-la direitinho desta vez.

- Vô, como você consegue ouvir tão bem?

- Na verdade, eu não ouço mais tão bem, mas aprendi a prestar atenção ao que vale a pena ser escutado.

E naquele momento a criança e o velho ouviam muito bem a natureza da cidade.

- Veja que muitos passam e poucos escutam o som das cigarras. Agora veja o que acontece, se alguém irá ouvir este som baixíssimo...

O avô tira do bolso e deixa cair delicadamente uma moeda na calçada.

Na mesma hora, mesmo com a poluição sonora ao redor, várias pessoas olham para o chão bem na direção do dinheiro.

- Viu, não se trata de ouvir, mas de saber ouvir. Saber o que ouvir e escutar melhor.
  
Conto traduzido e recriado por Fabio Lisboa
a partir da versão de Rona Leventhal, The Cricket Story

Referências
Livro: Spinning Tales, Weaving Hope: Stories, storytelling, and activities for peace, justice and the environment, 2002, New Society Publishers, Canada, p. 201.

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História: O dia em que João Grilo não encontrou um sábio



Conto popular recontado por Fabio Lisboa

Um dia o esperto João Grilo marcou, em sua casa, um encontro com um homem dito sábio. Mas esqueceu-se de um detalhe que era, na hora marcada, estar em casa.

Chegando lá, o tal sábio bateu na porta entusiasmado em estar cara-a-cara com  João Grilo, o cabra mais astuto da região.

E...


Nada de João.

O sábio esperou, esperou, e foi ficando desapontado, mas sabia que a sabedoria deveria andar lado-a-lado com a paciência.

Bateu na porta de novo, pronto para começar o bate-papo ensinando bons modos ao espertalhão!

E...

Nada de João.

O sábio foi perdendo a paciência quando percebeu que havia batido com a porta na cara, e bateu nela uma última vez com força (não com a cara, mas com a mão)!

E...

Nada de João.

Quando perebeu que o cabra safado havia lhe deixado na mão, o sábio perdeu de vez a paciência e com ela a sabedoria. Antes de ir embora, achou no chão um pedaço de carvão e escreveu bem grande na porta de João Grilo:

IMBECIL!

Enfim, voltou para a sua casa. Só que mal fechou a porta, ouviu "toc, toc, toc"...

- Quem é?

- É João.

- Quer o quê?

- Pedir perdão.

A porta se abriu e João Grilo  disse assim:

- Ora, o senhor que me perdoe o esquecimento, viu, é que só me lembrei do nosso encontro quando vi o teu nome escrito na minha porta.

Conto popular recontado por Fabio Lisboa

Referências
Ouvi este conto da Contadora de história, Professora de contos populares e Língua encantada Andrea Sousa.

João Grilo, como Pedro Malazartes, é personagem comum da tradição oral  e dos contos populares brasileiros. Segundo a pesquisadora Evelin Guedes, ambos provém da tradição ibérica mas adaptaram-se à cultura brasileira, tornado-se ainda mais astutos e malandros por aqui, vencendo as adversidades e desafiando os mais fortes, cultos, ricos ou poderosos com criatividade, bom humor e ironia. João Grilo ficou famoso na peça teatral escrita por Ariano Suassuna em 1955, Auto da compadecida, adaptada para o cinema e mini-série de TV.

Mais informações no artigo A “Dialética da Malandragem” em Lalino Salãthiel e João Grilo: http://www.fflch.usp.br/dlcv/revistas/crioula/edicao/12/ArtigosEnsaiosEvelinGuedes.pdf

Foto: 

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Teste a sua atenção (ao contar histórias)


 Por Fabio Lisboa
Um quesito importante ao se narrar uma história é a atenção.

Se estivermos atentos ao que contamos, não deixaremos o fio da meada se perder.

Imagine que os passes do time branco são os passos da trama de algo que você está contando, algo cheio de idas e vindas, atrativos, antagonistas e reviravoltas. Então não se enrole no fio da meada.

Concentração! Foco! Siga as instruções do vídeo e conte!
Boa sorte!

(para maximizar a imagem em sua tela clique no quadrado abaixo e à direita da tela de vídeo)
(para sair do modo tela cheia tecle ESC)

(caso o vídeo não esteja aparecendo clique no link abaixo)
(leia o trecho abaixo somente depois de fazer o teste)


Aprofundamento

Há ao menos três jeitos de aproveitarmos este teste como metáforas para a nossa prática como narradores (e seres humanos) e pensarmos juntos:

1.
Depois de ver o vídeo, podemos concluir que, ao contar histórias, é preciso atenção não somente “aos passes” (como estamos entregando aos ouvintes os passos da trama) mas também “ao que acontece ao redor” (como os ouvintes estão recebendo as nossas palavras). Será que estes estão participando e engajados no “jogo narrativo” ou estão, como ursos dançantes, “à parte”?

2. No final, a campanha surpreende ao pedir ao espectador para que “Fique atento aos ciclistas”. Neste caso, estar atento ao que não vemos num primeiro momento pode ser uma questão de proteção (ou desrespeito) à vida. Cabe refletirmos o que mais não vemos ou fingimos que não vemos ou deixamos pra trás no nosso “ponto cego” e que, tanto em nossas narrativas quanto na convivência diária no mundo contemporâneo, seria importante olharmos com cuidado e darmos mais atenção.

3.
Entender o poder de conduzir à atenção e surpreender com o uso bem elaborado do foco narrativo. O narrador dá ênfase a uma parte da história e encobre outra para que esta, quando aparecer, surpreenda o espectador. Podemos constatar que uma narrativa bem construída dá pistas aos ouvintes e coloca elementos que podem desvendar a trama desde o começo (ou, ao menos, antes do fim).

A magia acontece quando descobrimos que todas (ou quase todas) as peças do quebra-cabeças estavam lá, só não conseguíamos ver o todo (big picture).


Continuidade

Estar atento ao fio da meada e ao que acontece ao redor do espaço da narrativa, estar disposto a ver (e fazer ver) o invisível e estar preparado para ser convincente, entender e surpreender o ouvinte fazem parte da busca de vida de um contador de histórias.

É fascinante sentir o poder das técnicas citadas ao ser arrebatado incontáveis vezes em narrativas que parecem não cansar nunca de ser revisitadas, ao ler contos de fadas, contos populares, maravilhosos; ou ler livros de Agatha Christie, Stephen King, Marcos Rey, Pedro Bandeira; ao ver filmes como E.T.,  StarWars, Crash – No limite; ouvir canções de Chico Buarque, Caetano, Gil, Beatles, Coldplay; ou ouvir experientes contadores como Dan Yashinsky, David Novak, Regina Machado, Gislayne Matos e Antonio Rocha, só para citar alguns.

Trechos destas obras e da fala destes narradores nos permitirão penetrar com mais profundidade no entendimento do que nos capta a atenção, nos admira, nos faz ver além e nos conduz nas viagens pelo mundo das narrativas... mas esta já é uma outra jornada.

(por favor, comente caso deseje que algum dos temas deste post seja aprofundado)


Referências
Teste a sua atenção - Legendado

Vídeo Original
(Campanha para o “Transport of London”: Fique Atento aos ciclistas)

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Neurociência e contar historias: O poder da comunicação 1 (parte 1 de 2)

Neurociência e contar historias: O poder da comunicação 2 (parte 2 de 2)


Como começar uma história



Era uma vez um contador de histórias que não sabia como começar um conto. O seu maior medo era lhe deixarem no meio da fala, falando sozinho. Terminar era fácil, só por ponto final e pronto. Silêncio. Fim. E depois do fim, quem sabe um pedido: “conta outra”. Conto, claro, mas como começar uma nova história? Como começar sem que ninguém desista de ouvir antes do meio e arranje um meio de não chegar até o fim?

A função da arte 1


por Eduardo Galeano

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.

Viajaram para o Sul. 

Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. 

E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: 

- Me ajuda a olhar! 


Referências
Texto: "O Livro dos Abraços" de Eduardo Galeano, Tradução de Eric Nepomuceno, ed. L & PM.

Dedicatória:
À minha amiga contadora de histórias Rosita Flores - que me ajudou a olhar, pela primeira vez, das areias da praia, para a poética de Eduardo Galeano.
  
Ao meu aprendiz de contador de histórias de 8 anos, Gleisson - que nunca viu o mar, e me pediu para ajudá-lo a realizar este sonho que, se Deus quiser, será real em agosto de 2013.


Fábula: O dia em que o gigante acordou

    


"A paz universal e duradoura poderá ser estabelecida apenas se baseada na justiça social. Se você deseja a paz cultive a justiça".
Norman Borlaug - Agricultor, ganhador do Prêmio Nobel da Paz 1970.

“Queremos paz e justiça e lutaremos por isso com garras e dentes.”

O lema das montanhas estava para mudar. Os animais estavam cansados dos mandos e desmandos dos leões-da-montanha. Alguns deles caçavam mais do que precisavam para comer. Estes poucos felídeos abusavam de seu poder, rompiam com a lei universal dos ciclos da natureza e com isso geravam desequilíbrio e insatisfação geral. Com isso, criaram uma má fama para a sua espécie e o seu modo de agir e ninguém queria mais saber daquela ditadura felina predatória e insustentável!

Porém, apesar da insatisfação, não havia um bicho que levantasse a voz para o modo de vida que viviam e que acabava com a vida nas montanhas. Até que um dia as cabras criaram coragem e baliram alto:

História: A faca do rei



Conto da tradição oral recontado por  Fabio Lisboa

No tempo em que caçadores usavam facas para caçar e reis usavam facas para colecionar, houve uma grande festa reunindo diversas vilas do reinado. O caçador do vilarejo mais distante também foi à festa.

Os convidados deste local periférico levaram dois dias para chegar e graças ao caçador puderam se alimentar de carne fresca durante a viagem. Ele era um homem quieto, saía cedo para caçar e voltava tarde, quase sempre trazendo algo de bom que dividia com todos, obviamente ficando com uma generosa parte da caça para ele mesmo. E os conterrâneos do caçador o queriam bem por ele ser assim.

Durante as festividades houve um farto banquete e todos cantaram e dançaram – com exceção do caçador da vila distante que preferiu ficar apreciando a coleção de facas do rei. O homem gostou muito de uma das facas - justo a preferida do rei - que era muito afiada e toda ornamentada, com o cabo esculpido em madeira e cravejado de garras e dentes de predadores selvagens. Acontece que quando todos foram embora da festa a faca preferida do rei sumiu.

Histórias em vídeo: “De criança para criança”

Foto: Bel Duarte Azambuja
Quem acha que criança nunca tem vez nem voz no nosso mundo – além de não saber desenhar e muito menos contar histórias direito - vai se surpreender com este projeto disponibilizado no youtube: “De criança para criança”.

A primeira animação traz ilustrações e vozes de meninos e meninas dando vida a uma destemida princesa que enfrenta um "bafo de Dragão” (do Príncipe!).

Uma aventura para desafiar os sentidos, inclusive os estéticos. Afinal, não são todos que valorizam uma voz e uma estética artística diferente de sua (a saber, de sua cultura dominante adulta que define o que é belo ou não). Falando nisso, além das ilustrações inspiradoras para a criação da narrativa, quem sabe, em breve, o projeto também abarca histórias e roteiros criados pelas próprias crianças... de um jeito ou de outro, elas adoraram fazer parte das invencionices de histórias “de criança para criança”!

(na caixa de vídeo abaixo, clique no ícone abaixo à direita "full screen" para ampliar a tela)

(caso o vídeo não esteja aparecendo clique no link abaixo)


Saiba mais sobre o projeto:

História: Os Gravetos da Discussão

Foto: Donald Vish – Iroquois Woods



Conto Iroquês recontado por Fabio Lisboa

Os antigos indígenas iroqueses tinham o costume de usar os gravetos da discussão para resolver conflitos.

Um dia, há muito tempo, dois garotos iroqueses discutiram tanto que quase chegaram a se estapear por causa da sua acalorada argumentação.

Cada pai de cada garoto tomou o partido de seu filho e uma antiga amizade entre as famílias estava prestes a se esfacelar. Os adultos que se envolveram na discussão estavam quase pegando em armas para decidir quem estava com a razão.

As avós dos garotos se lembraram que a disputa deveria ser decidida pelos gravetos da discussão. Na montanha.

História: O discurso silencioso

Fairy Wren - Foto: Duade Paton

História da tradição zen recriada por Fabio Lisboa

A alvorada no templo chegou com alvoroço. Todos haviam madrugado e já esperavam o mestre chegar trazendo com ele derradeiras palavras de iluminação. O velho sábio iria retirar-se do templo e meditar por 10 anos nas montanhas. Então esta seria uma oportunidade rara, senão a última, de ouvir o que o ancião tinha a dizer.

Contos de fadas e a palavra do contador de histórias: Silhuetas no clarão dos tempos (parte 2 de 2)

Imagem do filme Príncipes e Princesas (1989-2000) de Michel Ocelot

por Fabio Lisboa

Se a silhueta é metáfora útil para o narrador oral, a animação “Príncipes e Princesas” (série de TV francesa de 1989 – relançada em 2000 em formato filme), de Michel Ocelot, ilustra bem o poder imaginativo que o uso desta suscita.

Contos de fadas e a palavra do contador de histórias: Silhuetas no clarão dos tempos (parte 1 de 2)

Imagens do filme Príncipes e Princesas (1989-2000), de Michel Ocelot
por Fabio Lisboa
 
Em tempos de luzes que iluminam a noite, de meios de comunicação e conexão on-line que nos fazem passar noites em claro, e de holofotes voltados para banalidades e tragédias da vida real, será possível enxergarmos sutilezas e belezas na penumbra da imaginação?

O deserto intransponível e os cantis secos



História real por Fabio Lisboa

Eu e meu irmão menor fazíamos os preparativos para a travessia de um deserto quase intransponível. Este deserto começava no quarto de costura de minha avó e se estendia pelo corredor até a sala de estar.

Era 1983, eu tinha 8 anos e o Gu, meu irmão Augusto, 5. O nosso deserto tinha uns 10 metros no total. Todavia, na época, esses 10m adquiriam proporções colossais pois circulávamos inúmeras vezes pelo trajeto. Além disso, criávamos obstáculos e íamos vencendo a travessia, escalando morros de almofadas amontoadas no corredor, adentrando uma caverna debaixo da mesa da sala e atravessando a ponte do sofá de molas por cima de um caldaloso tapete escorregadio, perigosíssimo, infestado de jacarés e areia movediça - não me pergunte como os jacarés conseguiam nadar na areia movediça, só sei que ambos conseguiam estar lá, juntos, na nossa imaginação e, sem dúvida, no tapete da sala da minha avó.

Algumas brincadeiras e viagens fantásticas só são mesmo permitidas na casa dos avós. E para uma brincadeira ser mesmo fantástica, além da permissão é preciso concentração, imaginação, cooperação e, antes de tudo, preparação.

Os contos de fada como instrumentos de superação das dificuldades de “encontro” na escola



 por Vania Longo

No ambiente escolar, alguns motivos levam os alunos a se “desencontrar”, desmotivando-se pelo estudo, não se interessando pelas matérias ensinadas, tampouco pelas aulas ministradas, não estabelecendo vínculo com os colegas, apresentando apatia diante das tarefas, ritmo lento ou acelerado em relação à turma, demonstrando dificuldades  na aprendizagem, logo, estando sujeitos à reprovação, o que agrava ainda mais o quadro discorrido.

Observamos que invariavelmente os estudantes não estão devidamente mediados para a aprendizagem, os conteúdos apresentados não falam para a essência, para a “alma”, a escola e a família não conseguem interessá-los, despertá-los para uma vida interior que faça conexão com o conhecimento sistematizado pelas ciências e assim são fortalecidos os motivos para a “desistência”, apatia, desinteresse.

Por que as coisas tem o nome que tem?



Uma história real, por Fabio Lisboa

Sempre quis conhecer o real significado das palavras. Um dia eu descobri porque o pufe se chamava pufe.

“Não faça isso, é perigoso” – meus pais sempre diziam isso quando eu fazia descobertas semânticas arriscadas como a do pufe.

Contos de Fadas: espelhos mágicos da alma (parte 3 de 3)


Ilustração de Igor Oleynikov em The King with horse´s ears and other Irish folktales
História: O rei que tinha orelhas de cavalo

Inspirada num conto da tradição oral irlandesa
Narrativa recontada e adaptada por Fabio Lisboa

Era uma vez um rei tão bonito e bravo quanto um cavalo selvagem. Era o rei Equinus IV do reino de Apparentis, um lugar onde cada pessoa buscava esconder os defeitos para ser, ou melhor, parecer... perfeito.

Contos de Fadas: espelhos mágicos da alma (parte 2 de 3)

Capa e ilustração de Bruna Assis Brasil em Branca de Neve e as Sete Versões.

  por Fabio Lisboa

Em seu livro “Branca de Neve e as Sete Versões” o escritor José Roberto Torero conta que um dia a princesa acordou mais bela que a rainha madrasta. Neste dia, esta foi até o espelho mágico e perguntou:

“- Espelho, espelho meu, existe alguém no mundo mais bela do que eu?

E agora: O que você acha que acontece? Se você quer que o espelho minta vá para a página 08. Se você quer que o espelho diga a verdade, vá para a página 10.”[1]

Contos de Fadas: espelhos mágicos da alma (parte 1 de 3)

Ilustração de Bruna Assis Brasil em Branca de Neve e as Sete Versões. 


Os olhos humanos de uma sociedade que exageradamente se vê através de olhos eletrônicos coletivos são suficientes para nos enxergar como indivíduos? Neste contexto, os nossos sonhos são traçados por nós ou por outros para nós?

Os contos de fadas reforçam valores humanos ainda essenciais ou ideias antiquadas que não servem mais para nada nos dias de hoje? Será que estas histórias tão antigas podem mesmo refletir as profundezas da psique humana e por isso tornaram-se imprescindíveis na construção do nosso “eu” e na conexão com o outro?

História: A quem pertence a terra

Foto: Eduardo  Hanazaki

 História da tradição oral recontada pelo artista “anônimo” Fabio Lisboa
(continuação do post Contadores de Histórias: Artistas Rupestres das Palavras)

Era uma vez um humilde lavrador cujas terras sempre foram inférteis. Cansado de plantar muito e colher “pouco ou quase nada” decidiu tentar a sorte pelo mundo.

Contadores de Histórias: Artistas Rupestres das Palavras


 
 Artista aborígene Donny Woolagoodja fazendo a tarefa que herdou de seus antepassados: 
retocar a pintura na pedra de Wandjina em Kimberly, Austrália.

O aborígene passa em frente à rocha colorida e reconhece os desenhos que contam uma história de homens, mulheres, animais e a natureza em harmonia. O aborígene se emociona não só pela beleza e poder da arte na pedra mas porque os desenhos estão se desfazendo. Ele chora. É como se Wandjina, espírito da Nuvem e da Chuva, fosse embora da convivência com os humanos e não mais moldasse com beleza o meio ambiente. O homem começa a juntar barro, rocha ferrosa, carvão, calcário e o sumo de certas plantas para fazer tintas naturais. Depois de prontas e dos rituais apropriados, o artista contemporâneo começa a restaurar e refazer a obra de seus ancestrais que, aliás, acreditam ter sido pintada originalmente pelas próprias divindades no começo dos tempos, no Tempo dos Sonhos.

História: Nasrudin, o sábio juiz

Justitia em Florença, Itália. Foto: John Baltaks

 Recontada por Fabio Lisboa

Um dia, o juiz da cidade adoeceu. No outro dia, foram chamar o mulá Nasrudin para substituir o juiz.

- Nasrudin, o nosso juiz está de cama e não poderá julgar hoje. Querido mestre, poderia nos ajudar?

- Tenho minhas dúvidas se eu saberia me comportar num tribunal... – ponderou Nasrudin.

História Budista: A Semente de Mostarda



Recontada por Fabio Lisboa

Desde criança, Gotmai era a mais magra das crianças e por isso era chamada de Kisa Gomati (Gotami Magricela). Kisa Gotami era pobre, órfão e sofria com as humilhações, no entanto, mantinha o seu coração puro e livre de ódio.

Ela, inocentemente, sem saber, ajudou um rico e avarento mercador. E este a fez casar-se com o seu filho. Casada, Gotami achou que iria melhorar de vida mas aí é que as coisas pioraram. Apesar de não sofrer mais dificuldades financeiras, o marido a tratava como escrava e a humilhava ainda mais. Seu corpo magro até aguentava o sofrimento mas a sua alma se entristecia cada vez mais com a violência e injustiça do mundo.

Quando o seu filho veio ao mundo, finalmente, o mundo de Kisa Gotami mudou completamente.

História: O tesouro enterrado


  
História da tradição oral recontada por Fabio Lisboa

Há muito tempo, afastado das abastanças da cidade, vivia um viúvo fazendeiro de avançada idade. Além de uma horta e um pomar, o homem não tinha muitas posses mas sempre tinha ricos ensinamentos a passar para as futuras gerações de sua família.

Os ensinamentos eram passados para os cinco filhos, para as esposas dos filhos, para os muitos netos e netas em forma de histórias, conselhos e experiências – estas, quase sempre em forma de brincadeiras de faz-de-conta com os netos e afazeres da fazenda com os filhos e noras.

Só que os filhos do homem do campo só queriam saber das riquezas e da rapidez da cidade. Nada de perder tempo com bobagens caipiras! Eles e suas esposas não tinham mais tempo nem de tecer histórias e brincadeiras com os próprios filhos. Não tinham paciência para ouvir os conselhos e muito menos para aprender e fazer com prazer as tarefas cotidianas da roça. Queriam se mudar dali e prosperar! A única coisa que os fazia ficar eram rumores de que em algum lugar por perto havia um tesouro que só o velho fazendeiro sabia onde estava enterrado...