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A$$OMBRAÇÕES DA CIDADE

Imagem: Ângela-Lago
Por Ângela-Lago

Se você acha que assombração é coisa do interior, saiba que perto do Cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte, tem uma defunta que adora andar de táxi.

Vira e mexe ela aparece jovem e loura, toma um carro na rua e indica o endereço da casa onde morava. Quando chega, avisa que está sem dinheiro e pede que o taxista espere um pouco, enquanto ela vai lá dentro buscar.

A Verdade chega à cidade



Reconto de Fabio Lisboa baseado na versão de Clare Murphy

Era uma vez uma velha que há muito tempo era menosprezada numa cidade ávida por novidades. A mulher ficou tão esquecida por todos que começou a passar fome. Ficava mendigando pelas ruas em busca de alimento e quem sabe um pouco de atenção.

Naquele dia, decidiu bater nas casas. As pessoas quando viam o estado da mulher diziam logo:

História Nasrudin: As aparências enganam



O manto, o turbante e o jantar

História da tradição oral sufi recontada por Fabio Lisboa

Nasrudin foi convidado para um jantar suntuoso no palácio do emir. O mulá apareceu ao banquete de gala montado em sua mulinha, com suas roupas mais simples e surradas. Nem é preciso dizer que ele sequer conseguiu passar do portão de entrada vestido daquele jeito.

História Nasrudin: O Sermão


Ilustração: Bryn Barnard
Reconto: Fabio Lisboa

A fama de Nasrudin de ser um homem sábio se espalhou até que um dia o mestre sufi foi chamado a proferir um sermão na mesquita de um vilarejo. Ele concordou.

No dia combinado, numa sexta-feira, dia das orações, Nasrudin subiu ao púlpito e disse:

‘Boa tarde! Vocês sabem sobre o que eu vou falar?’

‘Não, não sabemos.’ – disseram todos.

História: O sentido da vida


História da tradição oral japonesa recontada por Dan Yashinsky

Nesta história zen, o discípulo pergunta ao mestre:

- Mestre, qual o sentido da vida?

SLAP!

O professor estapeia o aprendiz... E diz:

- Como você ousa trocar uma pergunta tão bonita quanto essa por uma resposta?


História zen recontada por Dan Yashinsky - tradução e adaptação: Fabio Lisboa


Referências
História ouvida na oficina de Dan Yashinky durante o Boca do Céu – Encontro Internacional de Contadores de Histórias 2014

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História: O Anel do Rei e a Justiça

História da tradição oral – reconto: Fabio Lisboa

Era uma vez, há muito tempo na África, no reino Monomotapa, um rei que era conhecido por buscar sempre a justiça e a verdade. Esse rei possuía um anel poderoso. Diziam que com o anel o rei podia enxergar a verdade até mesmo por trás de palavras falsas. E com a ajuda do poder do anel, a justiça sempre saia triunfante.

O anel havia sido forjado por artesãos de outros tempos e acompanhava os reis desde então. Era feito de ouro do rio Nilo, incrustrado com adornos de prata do rio Congo e cravejado de diamantes do rio Zambezi. O anel, assim como rei, representava a união de várias tribos da África, em especial das regiões que hoje conhecemos como Zimbábue e Moçambique.

Os chefes espirituais das várias tribos, que eram os responsáveis pela escolha do rei Monomotapa, viviam em certa harmonia, com exceção de Roswi, que não havia escolhido aquele rei, que questionava o seu poder e cobiçava o seu anel.

História: Dois irmãos e um muro


História recontada por Fabio Lisboa

José e João eram dois vizinhos que viraram amigos muito próximos. Tão próximos que se consideravam irmãos. Tão próximos que pegavam emprestado as ferramentas da roça um do outro. Mas se um pegava uma foice, devolvia-a amolada. Se o outro pegava o rastelo com o cabo frouxo, devolvia-o com um cabo novo. Sempre trocando palavras e gestos de gentilezas e sabendo oferecer, quando preciso, não só uma mãozinha, mas perdão. Infelizmente, não no episódio da cabra sem dono.

História: O que é justo...


Conto da tradição oral irlandesa recontado por Fabio Lisboa

Este conto relata o encontro de dois personagens irlandeses históricos que viveram no início do século XIX, um deles, um homem muito simples e injustiçado; o outro, um letrado advogado; incansável buscador de justiça.


Wilson Paddy Wood era um lenhador humilde e honesto que morava num pântano mas visitava quase todo santo dia a cidade vendendo um pouco de lenha a um preço justo e comprando o que comer e vestir. Mesmo vestindo roupas fora de moda e largas - que, aliás, combinavam com sua espessa barba, cabelo desgrenhado e com seu peludo jumento - era bem visto pela maioria, que se encantava com sua simplicidade e bom coração. Wilson dizia assim:

- O que é justo é justo: Madeira! Madeira! Pague o quanto puder! Se não puder, pague quanto puder - e quando puder!

Historia de Terror: Sozinho no Cemitério

 

Meu avô Luiz, quando jovem, morava na Rua Sergipe, bem em frente ao Cemitério da Consolação.

Muitas vezes, ao voltar para casa, fugindo da agitação paulistana de carros subindo e descendo a Rua da Consolação que já nos anos 30 do século passado parecia barulhenta, meu avô cortava caminho pela calmaria do meio do cemitério.

Às vezes era fim de tarde, à noite caia em meio à passagem pela necrópole. Muitas de suas histórias se passavam nesta passagem entre o mundo dos vivos e o dos mortos e vice-versa.

Seria impossível dizer quais histórias aconteceram de fato, quais eram provindas da tradição oral ou quais eram inventadas na hora por ele na hora porque ao recontar, parecia reviver todas as suas aventuras, verdadeiras ou fictícias e, com precisão, graça, dava vida até ao que talvez... não tivesse mais vida.
 

Uma vez o Vô Luiz me contou assim:

História: Saber ouvir


Era fim de tarde e o avô passeava com o neto por uma das movimentadas praças da barulhenta cidade em que viviam.

Havia o barulho de pessoas, celulares, carros, ônibus, buzinas, sirenes, construções.

- Está ouvindo as cigarras cantando?

- Não, vô.

- Chegue mais perto, elas estão ali.

- Eu nunca vi uma cigarra por aqui! Será que elas ainda existem na cidade, Vô?

O avô se abaixou próximo ao banco da praça.

- As cigarras se mimetizam, se disfarçam na folhagem e é difícil ver as danadinhas mas sei que estão por perto. Ainda moram por aqui, sim! Se formos de encontro ao som que emitem, talvez possamos ver a vibração de suas membranas, que é como cantam.

O neto se abaixou e conseguiu enfim ouvir a cigarra. Esta, com medo, parou de “cantar”. Mas os três continuaram lá, se observando, e quando a cigarra percebeu que o avô e neto não lhe representavam perigo, recomeçou a melódica. Os dois conseguiram vê-la e ouvi-la direitinho desta vez.

- Vô, como você consegue ouvir tão bem?

- Na verdade, eu não ouço mais tão bem, mas aprendi a prestar atenção ao que vale a pena ser escutado.

E naquele momento a criança e o velho ouviam muito bem a natureza da cidade.

- Veja que muitos passam e poucos escutam o som das cigarras. Agora veja o que acontece, se alguém irá ouvir este som baixíssimo...

O avô tira do bolso e deixa cair delicadamente uma moeda na calçada.

Na mesma hora, mesmo com a poluição sonora ao redor, várias pessoas olham para o chão bem na direção do dinheiro.

- Viu, não se trata de ouvir, mas de saber ouvir. Saber o que ouvir e escutar melhor.
  
Conto traduzido e recriado por Fabio Lisboa
a partir da versão de Rona Leventhal, The Cricket Story

Referências
Livro: Spinning Tales, Weaving Hope: Stories, storytelling, and activities for peace, justice and the environment, 2002, New Society Publishers, Canada, p. 201.

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História: O dia em que João Grilo não encontrou um sábio



Conto popular recontado por Fabio Lisboa

Um dia o esperto João Grilo marcou, em sua casa, um encontro com um homem dito sábio. Mas esqueceu-se de um detalhe que era, na hora marcada, estar em casa.

Chegando lá, o tal sábio bateu na porta entusiasmado em estar cara-a-cara com  João Grilo, o cabra mais astuto da região.

E...


Nada de João.

O sábio esperou, esperou, e foi ficando desapontado, mas sabia que a sabedoria deveria andar lado-a-lado com a paciência.

Bateu na porta de novo, pronto para começar o bate-papo ensinando bons modos ao espertalhão!

E...

Nada de João.

O sábio foi perdendo a paciência quando percebeu que havia batido com a porta na cara, e bateu nela uma última vez com força (não com a cara, mas com a mão)!

E...

Nada de João.

Quando perebeu que o cabra safado havia lhe deixado na mão, o sábio perdeu de vez a paciência e com ela a sabedoria. Antes de ir embora, achou no chão um pedaço de carvão e escreveu bem grande na porta de João Grilo:

IMBECIL!

Enfim, voltou para a sua casa. Só que mal fechou a porta, ouviu "toc, toc, toc"...

- Quem é?

- É João.

- Quer o quê?

- Pedir perdão.

A porta se abriu e João Grilo  disse assim:

- Ora, o senhor que me perdoe o esquecimento, viu, é que só me lembrei do nosso encontro quando vi o teu nome escrito na minha porta.

Conto popular recontado por Fabio Lisboa

Referências
Ouvi este conto da Contadora de história, Professora de contos populares e Língua encantada Andrea Sousa.

João Grilo, como Pedro Malazartes, é personagem comum da tradição oral  e dos contos populares brasileiros. Segundo a pesquisadora Evelin Guedes, ambos provém da tradição ibérica mas adaptaram-se à cultura brasileira, tornado-se ainda mais astutos e malandros por aqui, vencendo as adversidades e desafiando os mais fortes, cultos, ricos ou poderosos com criatividade, bom humor e ironia. João Grilo ficou famoso na peça teatral escrita por Ariano Suassuna em 1955, Auto da compadecida, adaptada para o cinema e mini-série de TV.

Mais informações no artigo A “Dialética da Malandragem” em Lalino Salãthiel e João Grilo: http://www.fflch.usp.br/dlcv/revistas/crioula/edicao/12/ArtigosEnsaiosEvelinGuedes.pdf

Foto: 

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História: Os Gravetos da Discussão

Foto: Donald Vish – Iroquois Woods



Conto Iroquês recontado por Fabio Lisboa

Os antigos indígenas iroqueses tinham o costume de usar os gravetos da discussão para resolver conflitos.

Um dia, há muito tempo, dois garotos iroqueses discutiram tanto que quase chegaram a se estapear por causa da sua acalorada argumentação.

Cada pai de cada garoto tomou o partido de seu filho e uma antiga amizade entre as famílias estava prestes a se esfacelar. Os adultos que se envolveram na discussão estavam quase pegando em armas para decidir quem estava com a razão.

As avós dos garotos se lembraram que a disputa deveria ser decidida pelos gravetos da discussão. Na montanha.

História: O discurso silencioso

Fairy Wren - Foto: Duade Paton

História da tradição zen recriada por Fabio Lisboa

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Ilustrações: Marie Cameron (in Contos Budistas)
 
Recontada por Fabio Lisboa

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